Atualizado em: fevereiro 1, 2026 às 8:16 pm
Por Guilherme Costa
O Dry Cleaning fez um grande alvoroço quando lançou o seu disco de estreia “New Long Leg”, em 2 de abril de 2021. Todo mundo descobria e falava sobre o grupo, cujo canto falado da vocalista Florence Shaw era tratado como uma grande novidade dentro das bandas alternativas contemporâneas.
“Stumpwork”, o segundo disco do quarteto inglês, saiu pouco mais de um ano após o debut, com a mistura entre o Post-Punk e Alt Rock seguindo afiada, embora sem causar o mesmo impacto de outrora. A grande promessa do rock não tinha sobrevivido ao segundo disco? Bom, não. Sem exageros — para o bem ou para o mal —, o Dry Cleaning ficou um tempinho focado na vida da estrada, retornando em 2025 para começar a promover o seu terceiro disco completo de inéditas.
“Secret Love” saiu no dia 9 de janeiro, via 4AD, mostrando que Florence Shaw, Tom Dowse, Lewis Maynard e Nick Buxton ainda têm muito o que experimentar dentro da sua proposta!
Recentemente eu vi o filme “Todo Mundo Ama Jeanne” (Tout le monde aime Jeanne, título original), que trazia partes animadas funcionando como as “vozes da cabeça” da protagonista. Ouvir “Hit My Head All Day”, faixa que abre o álbum, de alguma forma me remeteu ao filme francês; na música em questão, que é guiada pelo baixo sinuoso de Maynard, Shaw divaga sobre a vida, como se estivesse conversando consigo mesma: “Vida, uma série de memoriais e sinais/ Nos dizendo isso ou aquilo/ Nos contando isso ou aquilo, pense nisso/ Os objetos fora da cabeça controlam a mente”.
E se essa sensação de “conversar sozinha (o)” seja algo frequente na discografia do Dry Cleaning, não seria no seu novo álbum que isso mudaria! A palhetada seca de Dowse marca o ritmo da segunda faixa do álbum, “Cruise Ship Designer” — cujo refrão renderia uma boa coreografia de David Byrne e companhia —, do qual Shaw canta sobre ser uma designer de navios cruzeiros.
Embora haja um esforço para centralizar as atenções na vocalista (e isso não é algo específico do grupo inglês), é importante ressaltar que “Secret Love” é um grande álbum, também, pela parte rítmica. Com Buxton sendo mais reto e dando o que a música pede, Maynard e Dowse, por sua vez, estão mais soltos para criar as trilhas das “vozes da cabeça” de Shaw. O álbum não está tão cru quanto “New Long Leg”, utilizando de sintetizadores para preencher algumas faixas, como é o caso da quase faixa-título “Secret Love (Concealed in a Drawing of a Boy)”. Já em “Blood”, o esforço para criar uma atmosfera claustrofóbica, em que Shaw nos coloca a partir da sua letra calamitosa, é recompensado, numa das melhores faixas do álbum.
A parte rítmica também é importante para o álbum não soar repetitivo ou arrastado, uma vez que a interpretação de Shaw é monótona. Esse é o caso de “Evil Evil Idiot” que, com suas explosões de riffs (aqui e ali) aliadas à camadas de sintetizadores grandiosas, ganha um contorno muito maior do que poderíamos imaginar. Em “Rocks”, a guitarra está ao estilo The Damned, enquanto Shaw canta com uma raiva (relativamente contida) sobre a confiança em falsos ídolos.
Quase quatro anos completos foram o suficiente para nós sentirmos falta de Florence, Tom, Lewis e Nick, e “Secret Love” ainda guarda a armadilha de presumirmos que o Dry Cleaning irá cair no ciclo da repetição. Pelo contrário, eles estão mais em forma e confiantes do seu caminho e até “ousam”, como é o caso da meio Stone/ meio Power Pop “The Cute Things” e da sintetizada “I Need You”!





