Atualizado em: fevereiro 24, 2026 às 6:33 am
Hoje encerramos o papo sobre o post-rock (ou seja lá o que isso quer dizer), mas não poderíamos fazer isso sem antes trazer uma entrevista com alguém que é atribuído dentro do estilo com suas contribuições artísticas.
Na primeira semana de fevereiro, bati um papo com Guilherme Granado, um dos fundadores do Hurtmold (que você provavelmente já viu sendo citado por aqui), responsável por tocar teclado, vibrafone e eletrônicos no grupo e dono de uma carreira solo totalmente experimental.
Nele, pudemos falar um pouco sobre como ele enxerga o tal “post-rock”, os processos de composição do Hurtmold, influências e mais! Se liga:
UOLDM: O hurtmold, assim como outras bandas instrumentais/experimentais, são indicadas por imprensa e fãs de música como um grupo post-rock. Como vocês enxergam isso e o estilo em si? Lembro de ter lido numa entrevista que vocês se consideram um grupo de atitude punk e que são bem fãs de hardcore, por exemplo.
Granado: Eu nunca entendi muito esse rótulo. Claro, eu consigo ver quais bandas as pessoas colocam sob esse nome, mas pra mim o Hurtmold sempre foi e sempre será uma banda de rock. Rock já é um termo super amplo que abraça tantas variantes. E, é verdade, começamos no punk rock/hardcore e isso ainda informa muita coisa que fazemos.
UOLDM: Uma curiosidade (bem clichê) que sempre bate: a banda foi pensada como instrumental desde o início ou o lance de ter vocais é algo que simplesmente não se encaixa na maioria das vezes? “Cozido” tem vozes bem legais.
Granado: Nunca discutimos sobre o que queremos fazer. Vamos compondo, juntando ideias, e chegamos a um resultado que nos desafia e que gostamos. Até hoje trabalhamos assim, e se em alguma composição acharmos que voz pode encaixar, vai rolar. As primeiras coisas que fizemos tinham mais voz, mas eu diria que desde o começo já era meio a meio. As coisas foram evoluindo naturalmente pra onde elas estão hoje, mas nao existe nada pré-decidido. Nunca.
UOLDM: Li uma entrevista em que o baixista e fundador do Tortoise (Doug McCombs) disse que oobjetivo da banda sempre foi fazer rock, mas sem se prender aos clichês e padrões do gênero. Você pensa de forma parecida com o Hurtmold?
Granado: Acho que o Doug acertou em cheio. O Hurtmold funciona de forma bem parecida. Só não diria que a gente conscientemente e/ou deliberadamente tenta evitar os clichês e padrões. Tentamos deixar a coisa fluir naturalmente, e acho que tentamos manter sinceras as nossas vozes e influências pessoais, o que, numa situação ideal, vai acabar evitando certos clichês.
UOLDM: A cada nova fase do grupo, parece que o Hurtmold agrupa cada vez mais instrumentos e texturas em seu som. E isso me deixa muito curioso quanto ao processo de composição das músicas. Como ele ocorre? As faixas nascem de ensaios e improvisos ou coisa do tipo?
Granado: Compomos todos juntos, na mesma sala, o que atualmente pode ser complicado. Mas é como fazemos. As canções podem surgir das maneiras mais diversas: uma linha de guitarra ou baixo, uma batida, uma sequência de acordes, texturas, ou até uma intenção. Não improvisamos muito, ao contrário do que as pessoas possam acreditar.
UOLDM: O Hurtmold é uma banda de amigos e pessoas próximas e imagino que vocês sempre compartilharam de algumas influências musicais em comum, mesmo antes de formarem ogrupo. Daria pra citar algumas delas e o papel de cada uma delas no Hurtmold?
Granado: Isso é bem difícil. Acho que cada um de nós tem gostos e influências muito diferentes. claro que existem intersecções, mas mesmo elas acabam tendo importância variada pra cada um de nós. Eu diria que quando começamos, o Fugazi era bem importante pra todo mundo da banda.
UOLDM: “Mestro” completou 20 anos no ano passado e continua sendo um dos trabalhos mais populares da banda. Duas décadas depois, como você avalia o álbum e as dinâmicas do Hurtmold naquele momento?
Granado: Tenho ótimas lembranças da época que criamos e gravamos o “Mestro”. Acho que tínhamos encontrado a nossa voz naquele momento, e estavamos felizes de dividir isso com as pessoas. Quando decidimos fazer esses shows (de comemoração de 20 anos do disco) e lembrar músicas que não tocávamos há muito tempo, eu achei muito legal revisita-las.
UOLDM: No começo de 2024 vocês se apresentaram no Sesc Consolação e lançaram há pouco tempo um disco ao vivo (Sessões Selo Sesc #17) de um show em 2023 no Sesc Santana. Como tem sido isso?
Granado: Quando a proposta de lançar como álbum apareceu, nós achamos que seria uma ótima oportunidade pra registrar e comemorar esses anos juntos e também uma “porta” para o que vem pela frente.
UOLDM: Algum plano especial para a banda em 2026?
Granado: Estamos compondo faz tempo. A ideia é um disco novo ainda esse ano.
UOLDM: Pra fechar: aqui no site nós temos um quadro de recomendação de artistas e bandas — o Um Outro Lado Indica — e eu gostaria de saber quais nomes nacionais e internacionais você anda ouvindo recentemente para recomendar.
Granado: Pullman, Rodrigo Brandão, Clipse, Joshua Abrams Natural Information Society, The Necks, African Head Charge, Bitchin Bajas.





