Imagem dos integrantes do My Chemical Romance

Sons da (minha) adolescência – My Chemical Romance

Dando sequência na séria Sons da (minha) adolescência, eu destaco as minhas descobertas na discografia do My Chemical Romance

Atualizado em: fevereiro 24, 2026 às 7:04 am

Por Guilherme Costa

Infelizmente eu não posso dar créditos à minha memória, porque eu não lembro exatamente quando e onde eu vi o clipe de “Helena”, do My Chemical Romance — deve ter sido em 2004 ou 05, na finada Mix Tv. O que eu lembro é que eu não gostei muito da música, por achar um tanto melodramática. Com “I’m Not Ok” e os singles do “The Black Parade”, aí sim eu fui me simpatizando com o grupo formado por Gerard Way (vocal), Ray Toro (guitarra e backing vocal), Frank Iero (guitarra), Bob Bryar (bateria) e Mikey Way (baixo).

Como eu contei no texto sobre o Nickelback, a minha “formação musical” foi muito influenciada por videoclipes e rádio, deixando a prática de ouvir um disco completo mais para a parte final da adolescência e vida adulta. Quando eu reouvi “Welcome to the Black Parade”, já adulto, eu percebi que haveria algumas surpresas positivas se eu fosse mais a fundo nas músicas do grupo.

E assim, o My Chemical Romance está no Sons da (minha) adolescência!

O clássico preconceito com o emo

Impulsionados pela MTV, o Brasil teve o seu boom do Emocore durante os anos de 2006 a 2009, capitaneados pelo Nx Zero e Fresno — entre outras bandas que estavam na ativa mas que tinham o público localizado no underground, como o Hateen. A visão do que vinha da gringa era a mais generalizada possível, com My Chemical Romance, Avegend Sevenfold e Simple Plan, por exemplo, sendo colocado no mesmo balaio.

Para quem decidiu descobrir mais sobre o subgênero, percebeu que o estilo era basicamente um braço do Hardcore (da mesma forma que o Death Metal é do Heavy Metal). E, entre algumas ramificações do estilo durante a década de 90, o estilo entrou nos anos 2000 com um pouco de Pop Punk (principalmente pelas guitarras) em sua sonoridade — e o My Chemical Romance contribuiu para consolidar a versão mais radiofônica do estilo.

Three Cheers for Sweet Revenge

Apenas dois anos após do lançamento do disco de estreia, “I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love”, o My Chemical Romance deu boas-vindas para o sucesso com o seu sucessor: “Three Cheers for Sweet Revenge”. Capitaneados por “Helena” e “I’m Not Okay (I Promise)”, dois dos grandes hinos do grupo, o álbum teve (entre outras) certificação de Ouro na Argentina e Austrália, e Platina no Reino Unido e Estados Unidos.

Como eu disse acima, eu sigo não sendo muito simpático ao hit “Helena”, mas destaco “Ghost Of You” — o tipo de faixa que é apontada como uma amostra de um grupo amadurecido. Curiosamente, eu pensava que ela fazia parte do amadurecido “The Black Parade”. Mas o intuito do quadro é descobrir o que os discos nos reservam, para além dos hits/singles.

“Three Cheers for Sweet Revenge” caminha entre o Hardcore e o Pop Punk, com Gerard Way mostrando ser o tipo de frontman que se torna maior do que a própria banda. Contudo, não dá para apenas celebrar o cantor, quando temos os intensos trabalhos de guitarras da dupla Ray Toro e Frank Iero, além da bateria firme e dinâmica de Bob Bryar; uma das faixas que eu posso usar de exemplo é “Thank You for the Venom” que, embora inicie com um riff semelhante a “Unholy Confessions”, do A7X, ela tem uma energia capaz de colocar a pista de uma casa de show abaixo.

Outra que me chamou a atenção foi “Hang ‘Em Out”, seja pelo início faroeste ou pelo peso que a faixa tem durante os seus quase três minutos de duração. Com, à época, o MCR sendo uma banda que dialogava com o público jovem (que hoje em dia já estão adultos), a faixa funciona como uma grande descarga de energia crua em nossos ouvidos; mais melódico, mas não menos pesada, é “It’s Not a Fashion Statement, It’s a Deathwish” — um Hardcore, que aborda o sentimento de vingança oriundo da traição.

Não que seja necessariamente o meu caso, mas ouvir o “Revenge” na íntegra é um bom exercício para quebrar o preconceito com o grupo norte-americano. Mas ele é só a ponta do iceberg!

The Black Parade

O terceiro álbum de inéditas do My Chemical Romance é a grande obra prima do grupo, por mostrar um amadurecimento sonoro e lírico e por ser um disco conceitual que conta a história de um paciente com câncer terminal. Fazendo um paralelo a fim de exemplificar o salto que o grupo deu, “The Black Parade” está para o My Chemical Romance, assim como os “Illusions” estão para o Guns n’ Roses.

Como já comentado, foi aqui que eu comecei a realmente a gostar da banda (mesmo que de forma superficial), por causa da epopeia de “Welcome to the Black Parade”, “Famous Last Words” e “Teenagers” — assim como “Helena”, “I Don’t Love You” permanece longe do meu gosto pessoal.

A quase faixa título, aliás, é a síntese do que havia se tornado o My Chemical Romance. Impulsionado pelo grande videoclipe, o Hardcore e os vocais gritados de Way deram lugar a uma estrutura mais sofisticada, flertando com o Hard Rock; o apelo pop e um quê de ópera rock também estão na composição de “Welcome to the Black Parade”, que é emulada em outras faixas, como na dobradinha que abre o disco “The End.”/ “Dead!” (que conta com um grande solo de guitarra de Toro), “The Sharpest Lives” e “Mama”.

Mesmo que a veia Hardcore não esteja presente, o MCR não ficou mais leve. Pelo contrário. “Black Parade” é o típico caso do peso ser direcionado para outro caminho, com as guitarras menos rápidas, mas ainda pesadas e vibrantes — como ocorrem no Hard Rock — que são perceptíveis em “House of Wolves” e em “Famous Last Words”, num dos trabalhos de guitarras mais legais do disco. Agora, se eu pensei que “Welcome to the Black Parade” era um grande salto, “Cancer” — faixa guiada por uma linha pomposa de piano — é a consolidação do seu amadurecimento.

“The Black Parade” é o tipo de disco que é impossível não destacar todas as faixas, bem como é do tipo divisor de águas na carreira de um grupo. No caso do MCR, o álbum foi “apenas” um gigantesco sucesso, já que o último ato da sua discografia aconteceria quatro anos depois.

Danger Days: The True Lives of the Fabulous Killjoys

Em 2010 eu já tinha fácil acesso ao YouTube, entrando no processo de deixar de lado o consumo de videoclipes pela TV. Ou seja, eu decidia o que eu ouvia; e eu ouvia muito Hard Rock. Portanto, o quarto disco de inéditas do MCR não passou muito pelo meu radar, com exceção do single “Sing” (“Na na na…” foi ignorado por mim). Diferentemente de “Helena” e “I’ Don’t Love You”, cujo tempo não foi o suficiente para mudar a minha sensação sobre elas, “Sing” soa infinitamente melhor do que eu ouvi na época do seu lançamento (do qual eu já gostava), sendo mais madura e interessante, por sua cadência, refrão catártico, elementos eletrônicos de fundo (num clima meio Angels & Airwaves) e por mostrar como a banda foi capaz de seguir em frente após o sucesso de “The Black Parade”.

Já sem o baterista Bob Bryar, que recebeu os créditos de composição em cinco faixas do álbum, o My Chemical Romance seguiu com a bússola criativa apontada para a Ópera Rock, cuja história central do álbum é focada numa Califórnia pós apocalíptica do qual o grupo rebelde denominado Killjoys luta contra a corporação dominante — houve uma continuação em quadrinhos, escrita pelo próprio Gerard Way.

É por esse clima de Terra devastada que os efeitos eletrônicos entre as faixas são importantes para a construção da atmosfera do álbum, para além da própria construção da faixa. Sonoramente, o álbum dialoga com o seu antecessor, mas sempre deixando claro que não há pretensão de uma “parte dois”. E aí, entra as faixas “Bulletproof Heart” e  a dançante “Planetary (GO!)”: se a primeira poderia estar no disco anterior, a segunda é o claro passo seguinte, com “The Only Hope for Me Is You” sendo a fusão desses dois universos.

O Hardcore, claramente, ficou mais de lado ainda em “Killjoys”. No entanto, Way e companhia oferecem um refresco para os fãs mais antigos, com o Garage/ Punk Rock de “Party Poison”, uma faixa crua, reta e direta. “DESTROYA”, por sua vez, é quase um metal alternativo, cujo início se assemelha com coisas do Jane’ s Addiction.

“Danger Days: The True Lives of the Fabulous Killjoys” não é um disco para ser apresentado a quem estiver conhecendo o grupo, mas é uma boa opção para as pessoas que subestimam a capacidade criativa do My Chemical Romance. Sem dúvidas, até o momento, um grande encerramento da sua discografia.

Em 2013, o grupo anunciou o seu fim, retornando em 2019 para alguns shows pontuais. Até o momento, nenhum trabalho de inéditas foi lançado, mas o legado continua firme e forte — sobretudo, julgando pelo recente show em São Paulo, numa Allianz Arena lotada — reunindo a outrora garotada com a atual garotada.

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Guilherme
A ideia do Um Outro Lado da Música surgiu após a minha conclusão dos cursos de locução e sonoplastia no Senac. A primeira etapa foi o podcast, disponível no Soundcloud, sendo seguido pela página no Instagram. O site era um movimento natural e, cá estou, escrevendo sobre artistas novos, antigos, pops, undergrounds!

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