Atualizado em: março 30, 2026 às 7:35 am
Por Guilherme Costa
Com o enfraquecimento do poder das gravadoras na promoção do material de um artista, as possibilidades para mostrar a sua obra para um público ficou mais variada. Se antes tínhamos demos, singles, EPs e, por fim, o disco, agora é possível encurtar esse processo e liberar um disco completo de estreia nas plataformas de streaming e promovê-lo através de redes sociais e shows — como foi o caso dos australianos do Clamm. Há, também, quem prefira cair na estrada antes do lançamento digital, ganhando “maturidade de palco”.
No caso das irmãs canadenses Phoenix e Mercedes Arn-Horn, elas decidiram pavimentar o solo do Softcult com uma certa calma no que diz respeito ao lançamento do seu primeiro álbum completo. O que não quer dizer que elas não foram ativas entre os anos de 2021 a 2025. Pelo contrário. Com quatro EPs altamente promovidos, sempre com alguma prévia na pista, as gêmeas construíram um material extenso para levar para a estrada e consolidar a sua identidade.
Tantas músicas em tão pouco tempo poderia saturar a dupla antes mesmo da sua estreia completa. Portanto, além de ser o álbum de estreia, “When A Flower Doesn’t Grow” foi o primeiro teste de fogo superado pelo Softcult!
Lançado no dia 30 de janeiro, via Easy Life Records, o disco também foi amplamente promovido, tendo cinco das onze faixas liberadas previamente. Se o método de promoção dos EPs para o álbum não mudou, as prévias revelaram que as irmãs Arn-Horn poderiam estar mais barulhentas — além das afiadas críticas!
Este álbum é um trabalho conceitual sobre a metamorfose interna da revolução; Escrito da perspectiva de alguém que foi radicalizado por experiências traumáticas, fortalecido por sua própria resiliência e que, finalmente, se cura e floresce na pessoa que sempre deveria ter sido, apesar de um ambiente que tentou destruí-lo.
A declaração feita nas redes oficiais do Softcult é apenas um dos aspectos que mantiveram o DNA da dupla, que caminha entre o Shoegaze e o Drempop de bandas como o Lush, Momma e o Terraplana. O seu início, aliás, está num ambiente comum dos EPs anteriores, com “Pill To Swallow” e “Naive” criando uma atmosfera densa e ao mesmo tempo suave, carregada pelas paredes de guitarras e camadas eletrônicas oníricas e introspectivas em suas respectivas construções.
Letras críticas e muito diretas também é outro aspecto que não se perdeu. E é a partir da quarta música, “16/25”, que “When A Flower Doesn’t Grow” mostra o seu diferencial numa direção mais raivosa e explosiva. Enquanto a citada “16/25”, que aborda a errática aceitação num relacionamento entre um homem adulto com uma adolescente, é mais direta e carrega um pouco do Alt Rock característico do duo, “She Said, He Said” e “Hurt Me”, emana a crueza raivosa das Riot Grrrl — não apenas sonora quanto liricamente; em “Tired”, por exemplo, elas são bem diretas ao demonstrar o cansaço com os abusos sofridos diariamente:
“Estou cansada da opressão,
cansado dos seus preconceitos, cansado
das suas obsessões doentias,
cansado da sua agressão patética
“I Held You Like Glass” e “Queen of Nothing”, as faixas seguintes ao furacão canadense, volta para o estado entorpecido que as guitarras e os synths criam, sendo o tipo de som que os fãs da dupla estão habituados a ouvir. Já a faixa-título também é diferente, mas mais por ser uma peça guiada por um violão (cuja parte final explode numa parede de guitarras distorcidas); a letra é centralizada num ambiente que te pode e te impede de florescer: “Quando uma flor não cresce/ culpamos a rosa moribunda/ ou o solo que a abrigava/ e as raízes que ansiavam pelo desconhecido?”.
Com apenas trinta minutos e onze músicas, “When A Flower Doesn’t Grow” ganhou novas paisagens sonoras — algumas impiedosas —, deixando claro que não há nenhuma chance das gêmeas Arn- Horn se desarmarem do seu tom político, enquanto houverem os mais diversos tipo de abusos sendo cometidos diariamente.





