“Desaguar”, do Synx, é uma valsa lenta para o fim de tudo

Banda goiana de shoegaze retorna com EP denso e melancólico, guiado por distorções

Atualizado em: março 30, 2026 às 11:17 pm

Tem certas músicas que conseguem te fazer teletransportar – seja geograficamente ou sentimentalmente – para espaços que estavam, até então, inacessíveis dentro do nosso consciente.

Alguns trabalhos, por exemplo, me levam a um lugar mais frio, introspectivo e reflexivo sobre acontecimentos do passado. Pra citar alguns nomes: “Praia”, do ruído/mm; “olhar pra trás”, do terraplana; e, mais recentemente, “Desaguar”, do Synx.

O curioso aqui é a dualidade geográfica: dois grupos curitibanos que trazem o frio de sua cidade para a atmosfera sonora e que, aqui, se encontram em espaços sentimentais similares aos do Synx, que é de Goiânia – uma das capitais mais quentes do país.

A mesma cidade que, aliás, também é capa do EP “Desaguar”, lançado em janeiro deste ano pelo quarteto formado por Renata Servato (voz, guitarra, synth e também responsável pela foto de capa), Pedro Mendes (guitarra e voz), Lucas Radí (bateria) e Matheus Campos (baixo).

O trabalho, como revelado em entrevista ao Cerrado MPB, surgiu após um contexto de crise criativa de alguns dos membros e da vontade de apresentar um lado mais direto do disco de estreia “Inventário das Palavras Ausentes” (2023) – que também é bem legal.

E dá pra dizer que funciona. “Desaguar” não rompe com o passado – a atmosfera densa e ruidosa, ancorada no shoegaze nacional e internacional, continua presente – mas agora ganha novos contornos ao reduzir o uso de sintetizadores.

Janeiro”, a faixa de abertura, é uma exceção: começa com acordes limpos e, aos poucos, mergulha em um clima mais nebuloso, evocando a imagem de alguém com a água no pescoço: vocais limpos contrastando com instrumentos que soam submersos.

A faixa, que fala sobre vulnerabilidade, cria uma ideia de repetição de forma literal e traduz a sensação depressiva de perceber que o mundo, infelizmente, não pode parar de girar – nem mesmo quando precisamos disso.

Na sequência, “Calmaria” – um dos singles – é também uma das melhores faixas do compilado. Guiada pelo baixo e com o retorno dos sintetizadores ao longo de toda a duração, a música mescla vocais abafados (ou, melhor dizendo, afogados) com distorções em seu tom mais pessimista.

Tédio” também compartilha dessas distorções, sobretudo no baixo. Sem sintetizadores, a faixa te conduz por camadas cada vez mais densas a partir de um instrumental quase hipnótico.

É uma música ainda mais influenciada pelo shoegaze e que apresenta letras que me levaram, através de seus versos, a refletir sobre o papel do tédio cotidiano e como ele praticamente foi abolido em prol de uma hiperatividade constante: algo que só poderia desaguar em tons mais melancólicos.

A última faixa do EP corrobora esse sentimento e faz jus ao seu nome autointitulado desde o início. Se deparar com essa canção é como participar de uma valsa para o fim do mundo, com prédios caindo e tudo mais (tipo aquela cena final de Clube da Luta).

Se no começo eu citei um certo clima nebuloso permeando o trabalho, aqui ele toma completamente conta do som e te arrasta para um frio que, ainda marcado pelo gelo e pela introspectividade, consegue ser, de algum modo, acolhedor. E isso me fez pensar em algo: talvez o Synx coubesse naquela cena tão bem quanto “Where Is My Mind”, do Pixies.

 

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Arthur Coelho
Jornalista, baterista e apaixonado por música de todo tipo, principalmente se tiver gritaria. Também conhecido como Art ou Tuco.

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