Atualizado em: maio 5, 2026 às 8:01 am
Por Guilherme Costa
Dando sequência do “(Sub)gênero em foco” do mês de abril, é hora de abordarmos os discos seminais. Aqueles que, de alguma forma, moldaram o gênero a partir da sua estética e sonoridade, deixando uma grande herança para os que vieram depois.
Sigo dividindo em três partes, citando o Black e o Power Metal — além do próprio Symphonic Metal — a fim de reafirmar o caráter “simbiótico” que estes tiveram com o metal sinfônico!
“Once” (Nightwish)
O ano era 2004 e Tuomas Holopainen (teclado), Tarja Turunen (vocal), Emppu Vuorinen (guitarra), Marko Hietala (baixo e backing vocal) e Jukka Nevalainen (bateria), estavam a fim de atingir o mainstream. A influência do Power Metal foi deixada de lado, dando lugar a uma sonoridade com guitarras mais densas (impulsionadas pelos teclados de Holopainen) e atmosféricas — embora seguissem pesadas. Já os elementos sinfônicos ficaram mais grandiosos, com a parceria com a London Session Orchestra:
“Ao fazer esse tipo de coisa realmente orquestral e sinfônica por quatro álbuns, você precisa estar preparado para dar o próximo passo e ir 10 passos além, e foi assim que acabamos com a London Session Orchestra . Naquela época, também tínhamos os recursos financeiros para isso. Foi como nossa segunda grande virada; ‘Oceanborn’ (1998) nos lançou, nos levou para a primeira divisão”. Declarou o comandante do grupo, Toumas Holopainen.
E, sim, havia algo além do limite que os finlandeses haviam atingido. E é por isso que eu escolhi o quinto álbum do Nightwish para abordar. Embora a banda e o Therion já haviam mostrado como fazer a coisa, “Once” é o responsável pelo gênero atingir a grande massa (ou parte dela), sendo bem comum encontrar pessoas não roqueiras que conhecem “Nemo” ou “Wish I Had an Angel” — aqui, no Brasil, duas faixas cujo videoclipes foram bastantes executados na MTV.
Para além do imenso sucesso, vendendo mais de 2 milhões de cópias pelo planeta, é possível reconhecer elementos que estão em outras bandas: como a épica introdução da faixa “Planet Hell”, que pode ser reconhecida em diversas faixas do Leaves’ Eyes; ou até mesmos os trabalhos de guitarras do Epica, podem, sim, ser influenciados por Emppu Vuorinen — sem contar a dupla de cantores, Tarja e Marko. Ou seja, para além dos fins comerciais, o disco é uma grande influência por si só.
O resto da histórias todos sabem: Tarja saiu; o Nightwish lançou dois discos tecnicamente perfeitos com a sua substituta, Anette Olzon (que sofreu rejeição dos fãs); e seguiu gigante com Floor Jansen no comando vocal do grupo. Juntamente com o Epica e o Within Temptation, o Nightwish conseguiu ampliar a sua base de fãs, muito pelo reflexo do sucesso de “Once”.
“In The Nightside Eclipse” (Emperor)
O ano era 1994 e o Mayhem, Darkthrone e o Burzum já haviam lançados os seus respectivos discos de estreia, inaugurando o que é conhecido como “a segunda onda do Black Metal”. Também já haviam passado os casos de incêndios a igrejas católicas no Noruega, a qual Samoth (Tomas Thormodsæter Haugen) foi condenado a dezesseis meses de prisão; outro músico condenado a prisão, foi o Bård G. Eithun (conhecido como Faust), por ter cometido um assassinato em 1992. Ambos gravaram o álbum — juntamente com Ihsahn e Tchort — de estreia do Emperor, que marcaria uma grande ruptura na cena do Black Metal.
Diferentemente do som cru e da gravação Lo-Fi dos seus contemporâneos, a estreia do Emperor aderiu aos elementos sinfônicos para usar de pano de fundo, sem deixar as linhas de guitarras, baixo e baterias menos extremas. Pelo contrário, elas foram impulsionadas. Basta ouvir “The Majesty of The Night Sky” e perceber como os urros de Ihsahn ganharam uma potência com as bases sinfônicas.
Há faixas, no entanto, que são mais cadenciadas (para os padrões do Black Metal), como “Beyond The Great Vast Forest” — música do tipo que você reconhecem a influência em obras que vieram depois —, que, ao longo do seu pouco mais de seis minutos de duração mostra um caráter teatral e fúnebre. Certamente um grande passo, e logo nos “primórdios” da segunda onda.
O sucesso do disco não visava o apelo ao mainstream, algo que ocorreu (na medida do possível) com o Dimmu Borgir e Cradle of Filth: os dois grandes nomes que conseguiram ultrapassar as barreiras do BM. Tudo isso começou sob a liderança do então adolescente Ihsahn, em meio a polêmicas e crimes cometidos por metade dos integrantes do grupo. Separando a arte do artista, ou não, fato é que “In The Nightside Eclipse” é um marco na cronologia do metal sinfônico.
“Symphony of Enchanted Lands” (Rhapsody of Fire)
Em 1998, um ano após a sua estreia (“Legendary Tales”), o Rhapsody of Fire — à época, chamado apenas de Rhapsody — lançou o seu segundo disco de inéditas, “Symphony of Enchanted Lands”. Os italianos, que já haviam chamado a atenção do público com o seu debut, deram um passo significativo com o seu sucessor, criando um álbum cheio de passagens (e refrãos) épicos, sempre calcados na música erudita. O Power Metal (pejorativamente chamado de “metal espadinha”, mas que curiosamente sintetiza o estilo), consolidava a sua veia fantasiosa.
Posso resumir tudo pela faixa “Wisdom of the Kings”, cuja introdução é capaz de nos transportar para qualquer período medieval, que alia elementos eruditos e sinfônicos à guitarras virtuosas. Não à toa, a faixa é um dos grandes hinos do gênero e da banda.
Semelhantemente ao Nightwish, que contou com um orquestra para gravar “Once”, Fabio Lione, Luca Turilli, Alex Staropoli, Alessandro Lotta e Daniele Carbonera, enriqueceram o seu Power Metal com os mais variados instrumentos (viola da gamba, cravo, flauta doce barroca e oboé barroco, entre outros). O resultado não podia ser outro do que uma obra seminal e que flerta com outros estilos, como o Folk metal — como alguns trabalhos mais épicos e menos extremos do Ensiferum).
Ambição e nenhum receio de ousar estão na receita dos três álbuns citados. Mesmo que eles estejam em lados diferentes do universo das ramificações do Heavy Metal, é inegável que a visão a partir de elementos sinfônicos construíram uma identidade que podemos reconhecer até os tempos atuais.





