Um castelo em queda: The Amity Affliction revisita traumas e se reinventa entre o metalcore melódico e o deathcore em “House of Cards”

Banda australiana de metalcore chega ao nono álbum de estúdio e apresenta nova formação

Atualizado em: maio 9, 2026 às 1:48 pm

Na última sexta-feira de abril, dia 24, a banda australiana The Amity Affliction apresentou seu novo álbum de estúdio, “House of Cards, via Pure Noise Records.

O nome – que também é compartilhado por um famoso seriado de política – faz referência a um sistema instável, prestes a desmoronar a qualquer momento. Essa sensação de insegurança, aliás, marcou fortemente os bastidores do novo disco.

Vale lembrar que o baixista e vocalista fundador Ahren Stringer anunciou sua saída no ano passado, sendo substituído por Jonny Reeves, que agora assume os vocais limpos. Além disso, o vocalista principal Joel Birch chegou a declarar, em entrevista à Wall of Sound, que quase deixou o projeto em 2024. Curiosamente, ele também afirmou recentemente que este foi o primeiro álbum que realmente gostou de gravar.

Somado a esse contexto conturbado, o disco é marcado por letras e composições que revisitam o passado – não da banda em si, mas das memórias do principal letrista, Joel Birch. As músicas exploram episódios de abuso e traumas de sua infância, além da relação conturbada com sua mãe, temas abordados de forma direta em diversas faixas.

Se você já ouviu The Amity Affliction, não é surpresa que esse peso emocional impacte a sonoridade. “House of Cards” é um disco sombrio e pesado – exatamente como prometido por eles em entrevistas e nos singles. E isso não se limita ao som, tradicionalmente ligado ao metalcore, mas também às atmosferas e temáticas que permeiam cada faixa.

Quando falo disso, não me refiro apenas ao som deles – que usualmente bebe do metalcore – mas às temáticas e atmosferas contidas em cada música.  Esse é um álbum que te empurra sem pudor ao abismo, desde as introduções de “Vida Nueva” e “Kickboxer” (uma das mais pesadas da longa discografia deles)  até o final em fade out de “Eternal War”.

Há aqui um sentimento constante que equilibra tensão e catarse, resultando em um verdadeiro desabafo. Isso se intensifica quando Joel Birch assume os vocais rasgados — predominantes ao longo do disco e especialmente marcantes. Diferentemente de trabalhos anteriores, há inclusive uma quantidade considerável de músicas sem ganchos limpos.

Os vocais não gritados Jonny Reeves entram aqui como momentos de respiro, mesmo em faixas nas músicas mais melódicas – “Break These Chains”, “Heaven Sent” e “Swan Dive”, que curiosamente fazem a parte mais genérica e fraca do disco. Ao contrário do que é comum no gênero, aqui o vocal limpo serve ao agressivo, e não o oposto.

As partes mais pesadas deixam de ser apenas pontes para refrões acessíveis, indicando uma mudança de direção na sonoridade da banda, que tenta deixar para trás o clichê da fórmula metalcore. Se antes o grupo transitava entre o metalcore e o post-hardcore, agora se aproxima de um metalcore com fortes influências de deathcore.

Bleed”, lançada como single, exemplifica bem essa abordagem, além de incorporar elementos eletrônicos modernos de forma criativa. Esse recurso reaparece em “Reap What You Sow”, sendo utilizado com cautela ao longo das 12 faixas.

Isso reforça a sensação de que, mesmo em seu nono álbum e após mudanças internas significativas, a banda continua olhando para frente. Até mesmo faixas mais diretas, como “Speaking in Tongues” e “Eternal War”, se destacam por arranjos instrumentais diferenciados. No caso desta última, há inclusive uma inclinação ao hardcore, impulsionada pelas batidas aceleradas de Joe Longobardi.

No geral, House of Cards é um álbum impactante que marca uma nova fase do The Amity Affliction: mais moderno e um pouco diferente, mas longe de soar irreconhecível. Com novas vozes, uma abordagem mais introspectiva e produção assinada pelo guitarrista Dan Brown, o disco apresenta letras que que dialogam diretamente com as dores psicológicas do grupo – e que também serão reconhecidas por boas parte dos ouvintes.

Vale lembrar que o The Amity Affliction virá ao Brasil para um show único neste mês em São Paulo; confira mais em:

The Amity Affliction anuncia show em São Paulo com novo álbum a caminho – Um Outro Lado da Música

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Arthur Coelho
Jornalista, baterista e apaixonado por música de todo tipo, principalmente se tiver gritaria. Também conhecido como Art ou Tuco.

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