Atualizado em: junho 14, 2026 às 6:27 pm
Por Guilherme Costa
Uma coisa que eu sempre destaco nas resenhas que eu escrevo para o Um Outro Lado da Música é os benefícios que a chegada dos streaming me trouxe, no que diz respeito a apresentação de novos artistas. Seja (principalmente) matando o tempo no Youtube ou ouvindo algo “sem querer” no Spotify, o tal do algoritmo me apresentou alguém que esteve aqui no site (ou no Instagram) — como foi o caso do single “Call Me The Witch”, da cantora Luisa Ortwein — sob o nome artístico de lùisa —, liberado em janeiro deste ano.
A faixa também dá nome ao quarto disco de inéditas da cantora alemã, lançado no dia 10 de abril, de forma independente, cinco anos após o lançamento de “New Woman”. Diferentemente dos seus seus trabalhos iniciais, o álbum deixou as texturas Indie Pop/ Folk (próximos de Florence and The Machine e Feist) e percorreu com paisagens (ainda) suaves do Soft Rock da década de 70 — elementos já experimentados em seu disco antecessor.
O tempo entre os lançamentos do quarto e quinto disco pode ser explicado pela dificuldade inicial que a cantora teve em gravar o seu álbum, como a Lùisa abordou em suas redes sociais:
“A jornada para fazer este disco começou há alguns anos, quando mostrei algumas dessas músicas para homens da indústria musical. Me disseram que eles não acreditavam em mim como produtora — que eu precisava de um produtor internacional homem com experiência comprovada para ser mais “lucrativa”. Aquele momento me fez questionar o quão condicional a “igualdade” ainda é. As estruturas pelas quais eu navegava pareciam desesperadoras — precisando de aprovação, recursos e validação de um sistema onde dependo de homens no poder que tomam as decisões, definem as regras e não acreditam totalmente na minha visão ou nas minhas habilidades.”
A estreia como produtora, sendo uma faz-tudo dentro do seu próprio estúdio, apresenta duas situações: 1) a liberdade criativa e experimentações que a Lùisa criou — os sintetizadores estão mais soltos no álbum; 2) o quão grandioso e coeso “Call Me The Witch” é, sem cair na armadilha de muita informação ao mesmo tempo — e a sorrateira faixa-título é um bom exemplo de como um andamento simples, mas dinâmico, foi enriquecido com elementos eletrônicos.
“My Love Is Easy” é a responsável por abril o disco, cuja influência do Fleetwood Mac (da era “Tango in The Night”) é fundida no refrão ao estilo Kate Bush (grandes influências femininas) — influências replicadas em “Summer in The Woods” (tendo também um toque de Florence The Machine) e “Magical Female Rage”. Para além do grande desempenho vocal da cantora, a faixa mostra como a produção e os arranjos (grande introdução de guitarra) foram muito bem trabalhados.
As experimentações não demoram muito para surgir. “Stay the Night” traz a atmosfera futurista de alguns pop da década de 80, com o som focado nos sintetizadores, enquanto “My Mind Is A Time Machine” soa como uma balada moderna ao mesmo tempo que lembra a dinâmica de algumas faixas do Genesis (a era “We Can’t Dance”). “Pace”, por sua vez, dialoga com o folk-indie-pop de “New Woman”, numa canção que se alterna entre andamentos acústicos e a atmosfera indie pop que coloca a música numa crescente típica de uma contagem regressiva.
Em trinta e quatro minutos e nove músicas, a Lùisa evidenciou a sua plenitude enquanto artista e musicista. Mas mais do que isso, a alemã mostrou que está forte na luta contra os poderosos do mundo fonográfico em defesa da sua obra e, consequentemente, dos seus fãs.





