“Cinema Bélico?” prova que alguns discos nunca saem de cartaz

Novo trabalho do Cidade Dormitório chega com influências de art rock, rock alternativo e psicodelia brasileira

Atualizado em: julho 23, 2026 às 6:13 am

Grandes eventos demoram anos para acontecer e, geralmente, vão gerando cada vez mais expectativa conforme sua data se aproxima. Quem nunca se pegou contando os dias para uma Olimpíada, uma Copa do Mundo ou o lançamento de um disco?

Eu mesmo me encontrava dessa forma há algum tempo, na ânsia de ouvir “Cinema Bélico?”, o terceiro álbum de estúdio da banda Cidade Dormitório, que, a cada dois ou três anos, consegue transformar sua arte em um evento tão aguardado quanto uma Copa do Mundo – evento que, inclusive, acabou servindo de pano de fundo para a escrita desta resenha.

O curioso, e talvez contraditório, é que as impressões desse disco, que eu estava tão ansioso para ouvir, só seriam registradas meses depois. Em minha defesa: sou péssimo com pressão e odeio o imediatismo – algo que o próprio quarteto também parece rejeitar neste trabalho.

“Cinema Bélico?” também é contra a pressa e expande seu universo ao dialogar com diversas telas, películas, sensações e momentos de uma realidade que pode até não ser a sua, mas que desperta algum tipo de reconhecimento.

A palavra cinema ocupa o centro deste trabalho – algo que o título pode sugerir como óbvio –, mas ela não rouba a cena de maneira clichê ou previsível. O cinema está em todo lugar, só não como um simples adjetivo (essa música é cinematográfica, epopeica, atmosférica etc.).

O cinema aqui é o cinema do jeito Cidade Dormitório: dirigido com psicodelia brasileira, art rock, experimentalismo e uma autenticidade cheia de carisma.

Em diversas faixas, você se depara com efeitos sonoros raramente encontrados dentro de uma música – como o som de arminha (ou seja lá o que for aquilo) presente na abertura de “Vertigem Neon” ou a sonoplastia cartunesca de “Já Era, Mano”.

Nesse espaço, há margem também para que a teatralidade e a atuação entrem nas telas (e nos fones). As músicas permitem viver diferentes papéis e vidas. “Morcega” transforma uma narrativa que poderia ser de terror em um conto de beleza e ainda quebra a quarta parede com a ajuda de YMA, responsável pelo hit “Vampiro” – olha que curioso.

Em outra colaboração, “Como Assim?”, com o duo Carabobina, a atmosfera é mais onírica e quase espiritual. É um sonho bonito, sustentado pelas linhas de guitarra e pelas vozes que conduzem a faixa.

Trailers do Futuro” é outra canção que utiliza o cinema – e todo o seu universo – para falar um pouco de si e revelar mais alguns de seus efeitos. Aliás, é a música que faz isso de maneira mais direta, já pelo próprio título, que também se transforma em um belo refrão nas vozes da Cidade Dormitório ao lado da cantora Grisa.

Quando chegamos a “Vertigem Neon”, a sensação é de atravessar o espaço-tempo. É como experimentar algo que parece, ao mesmo tempo, futurista e familiar. Isso me levou a pensar que seu instrumental poderia ser a trilha sonora perfeita para um episódio cult de Cowboy Bebop.

Mas esse cinema não serve apenas para construir atmosferas. A essa altura, acho que já deu para perceber como o cinema da Cidade Dormitório é polivalente e vasto, encontrando diferentes caminhos para abordar temas distintos. Um deles, inclusive, revela um eixo crítico bastante interessante.

Já Era, Mano” aborda a precariedade, a alienação e a superficialidade das tendências contemporâneas. Já “O Terço e a Bengala” mira as redes sociais e suas dinâmicas de hiperatividade, hiperestimulação e imediatismo constante – o temido imediatismo. O grito de abertura, “Perdi o tesão!”, soa como um recado direto à saturação de um mundo hiperestimulado.

Eu gostaria de terminar por aqui. Mas,ao mesmo tempo, seria injusto deixar de mencionar algumas faixas que ainda não apareceram no texto. E não para cumprir algum checklist faixa por faixa – até porque isso já foi feito em uma matéria muito boa do Hits Perdidos –, mas porque elas também encontram maneiras muito criativas de se destacar.

Do fechamento poético em “Do Compositor” até a abertura com o single “Barco Amnésia”, nos deparamos com uma ode carinhosa e dedicada à terra sergipana. Já, em direção quase oposta, a minha favorita, “Alguém em Três”, transforma remorso e desilusão em um belo jazz.

No campo da nostalgia, temos “Avenida Canal 5”, que vai além do puro saudosismo e encontra um equilíbrio entre conforto e melancolia – aquela sensação de sentir falta de algo que simplesmente não pode mais voltar.

Esse sentimento também resgata algo que considero um dos maiores encantos do disco: a magia da primeira audição de um álbum novo ou da primeira sessão de um filme. O curioso é que “Cinema Bélico?” consegue fundir essas duas experiências. É um disco-filme encantador na apresentação, recompensador na repetição e que se torna ainda melhor conforme o tempo passa. E, assim como os grandes eventos que inspiram nossa espera, ele não termina quando acaba. A cada nova audição, é como voltar para uma nova sessão – e descobrir que ainda havia cenas esperando para serem vistas.

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Arthur Coelho
Jornalista, baterista e apaixonado por música de todo tipo, principalmente se tiver gritaria. Também conhecido como Art ou Tuco.

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