Atualizado em: agosto 13, 2026 às 8:06 am
A escrita e a música andam de mãos dadas. Ou melhor: fazem parte uma da outra. E aqui não se trata apenas de escrever letras ou compor músicas, mas de pensar em como diferentes formas de criação podem se encontrar, se influenciar e construir uma mesma linguagem. Há, inclusive, quem consiga transitar entre esses universos de forma quase natural, transformando referências, experiências e inquietações em diferentes novas formas de expressão.
Vinícius Castro, o Vina, é um desses nomes. Guitarrista da Hueyband, mente central do throe e escritor/entrevistador, ao lado de Amanda Mont’Alvão, do site Sounds Like Us – que completa 11 anos agora em agosto –, ele constrói uma trajetória dedicada à música independente.
Ele é tanto artista, quanto comunicador. Além de, é claro, um fã de bandas como Faith No More, Neurosis, Sonic Youth, Sepultura – da qual ele também é autor de um livro sobre o disco “Chaos A.D.” (Ed. Cobogó) – e muitas outras que rondam o espectro do mundo alternativo.
E que bom conhecer alguém assim, que nos relembra e ensina que a essência da música alternativa – e de tantos outros espaços em comum – está justamente em aproximar pessoas, seja pelos gostos compartilhados com outros ouvintes ou pela admiração pelo som criado por alguém.
Acostumado a conversar com gente que fez parte de alguns dos grupos citados acima, dessa vez Vina esteve no papel oposto ao que está acostumado a ocupar: o de entrevistado.
Entre o fim de julho e o início de agosto, tivemos o prazer de conversar com ele por mensagem sobre sua relação com o metal alternativo e o post-metal, as diferenças entre compor na Hueyband e no throe, a importância das texturas e da repetição em sua música, sua atuação como escritor e a forma como essas diferentes atividades criativas acabam se cruzando.
No fim, também falamos sobre seus discos essenciais, artistas que merecem ser ouvidos e os caminhos que continuam alimentando sua própria linguagem.

Como foi que o Metal Alternativo entrou na sua vida? Você se lembra de alguma música ou disco em específico que fez sua cabeça explodir e querer saber mais do estilo?
Acho que o “Angel Dust” (1992), do Faith no More. Ele cumpre bem esse papel de ser um marco no metal alternativo. Muita gente torceu o nariz na época porque era esperado que eles repetissem o formato do “The Real Thing” (1989), que tinha sido um baita sucesso com “Epic” e tal. Ali tem músicas que eram avançadas pra época, como “Jizzlobber” e “Malpractice” que direcionaram muito do que ia acontecer no metal alternativo a partir dali. No mesmo ano do “Angel Dust”, saiu o “Meantime” (1992), do Helmet; e o “La Sexorcisto: Devil Music Volume 1” (1992), do White Zombie também, né. Acho que esses discos meio que ajudaram a definir a coisa toda lá em 92.
É importante não esquecer que música é contexto e pra que esses contextos se formem, é preciso tempo. Nada é do dia pra noite. No caso do metal alternativo mesmo, a coisa já vinha sendo desenhada. Tipo, em 1989, o “Vivid“, do Living Colour, e mesmo o The Real Thing, do Faith no More, já apontavam pra algo diferente do hard rock e do thrash que estavam em alta na última metade dos anos 80. Mas, se eu tiver que escolher um disco, pra mim é o Angel Dust.
Ainda nesse assunto, mas entrando mais especificamente no Post-Metal, como que você conheceu esse estilo tão diferente? E como quevocê começou a compor algo que ia para um lado mais disruptivo do rock e do metal?
Hum… Acho que foi com o clipe de “Locust Star”, do Neurosis. É curioso porque nos anos 90 não tinha esse nome. Era metal alternativo também. Não tinha o termo post-metal. É importante lembrar que era um tempo sem internet ou revistas especializadas em sons mais estranhos no Brasil, e acho que isso fez com que o impacto deles fosse ainda maior. Não tinha precedente para como “Locust Star” soava, sabe.
Em relação às composições eu acho que foi natural seguir por um caminho mais, digamos, variado. Eu comecei ouvindo metal, mas nunca foi apenas isso. Mesmo nas minhas primeiras bandas eu já gostava de buscar sons mais estranhos na guitarra, dissonâncias, ruídos…Acho que conhecer Sonic Youth e Fugazi já no início dos anos 90 deu uma fortalecida nisso, e aí depois vieram coisas como o Chaos A.D., do Sepultura, e o próprio Neurosis mais pra frente… Tudo isso foi moldando a linguagem com a qual eu me identificava.
Aliás, muitas bandas dentro e fora do metal e seus subgêneros acabam recusando nomenclaturas e gêneros das quais se dizem não se representarem. Bandas como Pelican e Isis, por exemplo não se enxergam como bandas de Metal. Como você enxerga seus projetos nesse quesito?
É interessante isso mesmo… a forma como cada pessoa enxerga o que faz, né? Cara, acho que a nomenclatura é parte do repertório de quem ouve. Mas também não tenho o menor problema com isso porque eu acho que, a partir do momento em que uma banda lança suas músicas, elas não são mais somente daquela determinada banda. Entendo o que eles querem dizer, porque nos anos 80 ou comecinho dos 90, a coisa era muito padronizada. Metal era metal. Punk era punk. Então faz sentido que essas bandas nascidas já em uma época de muita mistura de sonoridades, não se enxerguem de uma única forma porque eles realmente não soam de uma única forma.
No Isis mesmo, tem muito de Tool, Pink Floyd, né. Colocar eles como uma banda de metal, fica reducionista. O caso do Huey e do Throe é muito parecido. Não são bandas de metal, somente. É muito mais amplo. Existem muitos outros elementos ali.
Continuando nesse assunto: quais as principais diferenças de compor com o pessoal da Huey e no Throe? Há algo em comum na comparação do processo criativo de ambos?
Acho que algumas coisas são realmente diferentes porque no Huey existem outras pessoas, com outras bagagens e criatividade. E quando tudo isso se junta, ganha muita força, sabe. O Throe é mais pessoal, literalmente. Tipo, não tem alguém comigo lá durante um ensaio ou na hora de compor, então eu geralmente começo programando os beats pra depois ensaiar em cima e aí lapidar, adicionar camadas e tal… No Huey esse processo acontece em grupo. Eu gosto dos dois formatos e acho enriquecedor.
Citei em textos anteriores que cada trabalho do Throe passa a sensação de uma estação e clima diferente, sobretudo de um inverno constante nos compilados mais recentes. E você, qual sensação tem ao ouvir as próprias músicas? Você as baseia em algum estado físico-metal conceitual?
Eu lembro disso e gosto dessa metáfora. Mas eu tenho uma outra relação com as músicas, sabe. Algumas foram compostas a partir de sentimentos angustiantes, então eu confesso que não escuto muito. Mas acho que dá pra dizer que o Throe é sempre sobre um estado de estar. Não importa muito qual seja, contanto que seja algo que precise ser expurgado, de alguma forma. Até acho que tem músicas mais luminosas, tipo “Gone”, “Rêve” ou “Hope Shines in the Autumn Light”, que é justamente sobre isso, sobre a luz da estação. Por exemplo, não daria pra chamar de conceitual, porque esse não foi o ponto de partida, mas o “Silver Blue” (2025) é um disco sobre memória.
Eu comecei a pensar sobre isso no meio do processo, de como aquelas músicas estavam me levando pra esse ponto, das memórias recentes, antigas, das que a gente perde ou que a gente luta pra não perder. Na verdade, isso rolou quando eu fiz a “Giz”, que tem um riff repetitivo exatamente porque ela tem relação com o processo de demência. É uma repetição por esquecimento e pelo medo de esquecer. Então acho que as músicas foram sendo feitas e quando me dei conta esse era um tema recorrente ali.
Se o Throe me passa uma sensação de reclusão e contemplação, o Huey me parece mais movimentado e caloroso. Você enxerga essa diferença entre os projetos? Eles acabam refletindo lados diferentes da sua personalidade artística?
Ah, total! Acho que é por aí mesmo e eu gosto dessa ideia de o Huey ser uma banda que combina peso, beleza e uma luminosidade, sabe. Tipo, eu sou a mesma pessoa nas duas bandas, mas as diferenças existem, caso contrário não faria sentido ter duas bandas iguais. Ninguém é uma coisa só, apenas. Então eu acho que no Huey eu tenho mais espaço pra aproveitar esse lance mais movimentado que você mencionou, do calor e da expansividade.
Também observo que muitos de seus compilados conseguem alternar momentos de melancolia e peso com outras partes mais delicadas. A sequência “Revê” e “Birds” do último disco deixa isso bem evidente. Como você equilibra e pensa nesses elementos?
É uma coisa proposital mesmo. Eu nasci no final dos anos 70, meus pais tinham muitos discos de vinil em casa, então isso é o meu universo. Pra mim faz sentido pensar na ordem das faixas porque isso me ajuda a tentar comunicar algo, como você sacou na passagem da “Rêve” para a “Birds”. Eu escuto dezenas de vezes antes de fechar uma ordem final. Vou testando, trocando e tentando entender a sensação de cada sequência e tudo mais. É um processo que eu gosto muito porque, como não tem vocal nas músicas, acho legal tentar ouvir o que elas querem contar e de que forma elas podem fazer isso.
Talvez dê para falar que uma marca registrada de suas músicas é repetição de versos e texturas, até com certo minimalismo na composição. O que te atrai nessa construção baseada em repetição, textura e desenvolvimento gradual?
A repetição é quase uma forma de cura, de buscar algo. É meio Manoel de Barros (poeta brasileiro ligado ao pós-modernismo e à Geração de 45) “repetir, repetir, repetir até ficar diferente” … haha. Pra mim tem o instinto e em como me sinto. Isso pode ser transmitido em 2 minutos ou em 20. Acho que a coisa do minimalismo vem da música eletrônica ou mesmo do gótico dos anos 80. Aquelas bandas tinham um pouco disso, tipo “Some Kind of Stranger”, (faixa) do Sisters of Mercy, ou “Last Exit For the Lost”, do Fields of the Nephilim. São músicas longas, repetitivas e que gosto muito. Tem algo da música preta ancestral também e do jazz, talvez. Não de forma direta, mas a coisa da pergunta e resposta, dos temas e desenvolvimento dos temas, dobatuque… O meu jeito de tocar é “batucado”. Eu penso no ritmo e depois em como entortar tudo isso.
Acho que as coisas que você disse, das texturas, minimalismo, repetições, elas vêm disso. Do que eu ouvi durante a vida e que foram modelando uma linguagem por onde eu me expresso.
“Acho que no Huey, no Throe ou no Sounds Like Us, eu aprendo com essas pessoas. Assim, são atividades complementares entre elas, mas são também complementares em relação a mim mesmo” – Vina
Seja na Huey ou no Throe, a grande maioria de suas músicas são marcadas pela ausência de vozes e vocais; como você enxerga isso? O objetivo sempre foi fazer algo instrumental?
É muito natural. No Huey a gente não sente falta porque conseguimos comunicar o que precisa ser comunicado a partir dos instrumentos. A gente se sente completo dessa forma. No Throe, por ser mais um experimento, vez ou outra as vozes aparecem. Por exemplo, no EP “Odium” (2020), o João (Test) gravou comigo e ele fez todos os vocais. Então eu acho que no Throe cabe ter vozes ou não também, depende da intensão.
Como que é essa de ser músico e escritor ao mesmo tempo? Você pensa em ambos como atividades complementares? De alguma forma, já trouxe para o Sound Like Us algo do Throe e do Huey ou vice e versa?
É engraçado… Nunca pensei muito nisso. Mas sei lá, são atividades criativas, então eu acho que elas se complementam de alguma forma. Não sei se eu trouxe algo de um para outro… Mas gosto de fazer coisas com pessoas que eu admiro. Então acho que no Huey, no Throe ou no Sounds Like Us, eu aprendo com essas pessoas. Assim, são atividades complementares entre elas, mas são também complementares em relação a mim mesmo, sabe. Deve ter uma intersecção, mas nunca pensei muito nisso… haha.
Pra finalizar, gostaria que você me falasse 3 discos de Post-Metal que você mais curte e que indicasse outros 3 nomes do mundo da música pro pessoal do site (em qualquer estilo).
Cara, no post-metal vou dividir entre um disco que gosto, um essencial e um de uma banda brasileira, pode ser? Primeiro o “Ausserwelt” (2010), do Year of no Light, uma banda instrumental da França bem legal e que traz coisas do doom e drone com melodias incríveis. Gosto muito desse disco! Acho que um disco essencial do post-metal é o “Through Silver in Blood” (1996), do Neurosis. Ele tem os pilares da sonoridade e aquela tensão de que o mundo tá ruindo…haha. Por último, uma uma banda brasileira atual, que é o Lōtico. Depois nomes como o Noala, por exemplo, é uma banda que consegue encapsular o post-metal de hoje em dia.
De outros estilos vou falar do “(The) Elements” (1974), do Joe Henderson com a Alice Coltrane. Ambos têm discos incríveis, mas esse é mágico e eu tenho escutado muito. Vou indicar a Neneh Cherry também. É uma grande artista e todos os discos são incríveis, mas o “Blank Project” (2014) é perfeito. Por último, o “Sem Esperanças” (2025), do DeafTest, que foi a união do Deaf Kids com o Test. Grande disco, cheio de texturas e experimentos já característicos de duas das bandas mais interessantes do nosso cenário. Acho que é isso.





