Atualizado em: agosto 23, 2026 às 4:58 pm
Nem toda paixão é à primeira vista. Às vezes, inclusive, você odeia algo para depois aprender a amar. Há até mesmo um subgênero de romance que reverencia essa situação, o tal “enemies to lovers”.
Assim que conheci o Placebo, eu me apaixonei instantaneamente, sobretudo pela casquinha de seu homônimo (1996) com “Without You I’m Nothing” (1998). Porém, eu não posso dizer o mesmo da sequência “Black Market Music” (2000). Ou ao menos não podia….
Minha primeira lembrança com esse disco é bem nítida: a faixa “Spite & Malice” – algo bem diferente de tudo o que o trio europeu vinha fazendo até aquele momento (e a posterior também).
A música já começa com falas meio hip-hop, que logo dão vez a um instrumental de protagonismo grave que serve para a voz de Brian pousar perfeitamente com sua delicadeza. Porém, no refrão, daquela combinação vem uma parte…. rimada.
Sabe quando você estranha algo e levanta a sobrancelha em desaprovação? Então, essa foi a minha reação (e é até hoje). Daí em diante, a canção vira um nu metal meia-tigela bem estranho.
Nada contra rap, mas muitas coisas contra o Placebo rimando. Aliás, eu descobri há pouquíssimo tempo que não é o Brian Molko que rima, e sim o MC Justin Warfield, que tem um timbre bem parecido.
Infelizmente, isso não fez minha birra besta pela música cair, e nem mesmo saber que a sua letra foi inspirada em um motim popular. Porém, a minha relação com o restante do disco (que é o mais importante) mudou completamente.
Não só mudou, como garantiu certo vício. De certa forma anacrônica, da forma que a internet nos propõe a conhecer as discografias, senti “Black Market Music” como um equilíbrio perfeito entre a melancolia revoltosa dos primeiros discos com os ganchos pop e experimentais que viriam a seguir.
Admito que também não sou grande fã da abertura “Taste in Men”, mas confesso que adoro a dobradinha “Days Before You Came” e “Special K” (musicaço!!!, uma das melhores do compilado).
O mesmo posso dizer de “Black-Eyed”: uma canção poética, viciante e com uma linha de bateria espetacular. Aliás, neste ponto, já não há mais campo minado.
“Slave to the Wage” é a canção perfeita pra pegar o transporte público na ida para o trabalho, com um simbolismo único e, de certa forma, revoltoso à forma do Placebo.
Já outros nomes igualmente bons, como “Passive Aggressive”, “Blue American” e “Peeping Tom”, trazem eixos ainda mais sensíveis e devastadores para a obra. Todos antecipam algo do sucessor “Sleeping With Ghosts”(2003) e quebram meu coração de forma certeira.
Eu provavelmente choraria no banho ao som dessas músicas, se eu fosse louco o suficiente para me banhar ao som dessas músicas. Mas a minha playlist de chuveiro não importa tanto assim, vamos combinar.
No fim, o que vale é que “Black Market Music” é um disco completo, com músicas que, definitivamente, te marcam – seja isso para um lado bom ou não. Afinal, o Placebo é uma banda que sempre surpreende, choca e causa estranheza de alguma forma.
E talvez seja justamente por isso que algumas paixões não sejam à primeira vista. Às vezes, é preciso primeiro torcer o nariz para depois perceber que você estava ouvindo algo que ainda não estava pronto para amar.





