Gnarls Barkley e o seu último no disco “Atlanta”

Dezoito anos depois, a dupla mostrou que havia muito o que explorar — mesmo que isso rendesse umas derrapadas

Atualizado em: outubro 18, 2026 às 7:35 am

Por Guilherme Costa

“Crazy”, do Gnarls Barkley, foi uma das trilhas sonoras oficiais de 2006. O arrasa-quarteirão estava no disco de estreia do projeto realizado por CeeLo Green e Danger Mouse, “St. Elsewhere”, sucedido por “The Odd Couple” em 2008 — que não teve um hit do mesmo tamanho, mas que seguiu parte do sucesso do seu antecessor.

Dezoito anos depois (entre trabalhos solos, sucessos e polêmicas/ problemas judiciais), a dupla retorna para concluir a trilogia iniciada há duas décadas com o disco “Atlanta”. Lançado no dia 6 de março, via 10K Projects e Atlantic, com a produção de Mouse, o álbum também é tratado como o seu último ato, como o comunicado à imprensa (na época do lançamento do single “Pictures”) sugeriu: “’Pictures’ é como voltar à estaca zero, é um momento de fechamento de ciclo”.

A fusão entre o Soul e Funk Music, aliada aos bons e criativos arranjos de Danger Mouse — além da voz de Green seguindo em dia — conecta “Atlanta” com os seus antecessores. “Tomorrow Died Today” é como voltar dezoito anos e se extasiar com o videoclipe de “Going on” (a minha favorita da dupla), embora elas tenham linhas antagonistas; guiadas por cantos gospels, a faixa de abertura do novo álbum evoca lamentações de um futuro pouco esperançoso (“Está chovendo balas do céu / Nunca vou esquecer o dia que o amanhã morreu”). Já “Turn Your Heart Back On” poderia muito bem estar em “St. Elsewhere” ou “The Odd Couple”, com as suas palmas otimistas (semelhantes a “Happy”, de Pharell Williams) e seu teor lírico volúvel.

Uma das fórmulas para um bom disco é conseguir mensurar o que é passado e o que é presente. Neste aspecto, “I Amnesia” (para os fãs de Michael Kiwanuka e Black Pumas) e “Line Dance” são os pontos de apoio para que o Gnarls Barkley não soe deslocado; esta última, aliás, mesmo que guiada por uma linha de baixa “funkeada”, contém uma atmosfera quase experimental — afinal, eles tem uma “nova dança”. Em contrapartida, a trinca “Let Me Be” (um soul pouco inspirado) e as eletrônicas “Cyberbully (yallo)” e “Perfect Time” derrubam bastante a qualidade que a primeira metade do álbum impôs.

O Jazz de “Boy Genius” surge para voltar a colocar o disco num bom nível, com Green lembrando os seus tempos de Goodie Mob, numa faixa que pulsa através da sua linha hip-hop. “The Be Be King” é um R&B em que a voz de Green está mais frenética ao passo que o seu característico falsete esbanja confiança nos versos “eu quero ser eu, selvagem e livre em algo totalmente novo”.

Nos tempos de hiato do Gnarls Barkley, enquanto Mouse trabalhava como produtor e formava o Broken Bells com James Mercer (The Shins), CeeLo Green fez sucesso — principalmente com o hit “Fuck You” — e esteve em polêmicas envolvendo ofensas homofóbicas, acusação de agressão sexual e condenação por fornecimento de ecstasy.

Entre a eterna discussão sobre separar ou não a obra do artista, Green e Mouse retornaram para fechar um capítulo glorioso optando por não estendê-lo (os shows de divulgação do álbum não contará com o seu produtor). “Atlanta”, ao menos e mesmo com os seus pontos baixos (e bem baixos), serve como um grande último ato da dupla.

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Guilherme
A ideia do Um Outro Lado da Música surgiu após a minha conclusão dos cursos de locução e sonoplastia no Senac. A primeira etapa foi o podcast, disponível no Soundcloud, sendo seguido pela página no Instagram. O site era um movimento natural e, cá estou, escrevendo sobre artistas novos, antigos, pops, undergrounds!

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