Atualizado em: janeiro 26, 2026 às 5:25 pm
Quem mora ou passou por São Paulo nos últimos dias sabe que a cidade fazia valer o verão com ondas extremas (e insuportáveis) de calor. Felizmente, isso mudou – ao menos no último sábado, dia 24 –, data que abriu oficialmente o calendário de shows alternativos na capital com um evento mais do que especial.
Seria um dia meio frio, com grandes ameaças de chuva, que abrigaria a primeira passagem e, ao mesmo tempo, a despedida do Orchid, um dos pioneiros do screamo/emo-violence, em sua apresentação única em um local condizente com a influência do grupo estadunidense: a casa do hardcore Hangar 110, localizada no Bom Retiro.
A data, além de única, também encerrava a passagem da banda pela América do Sul, após shows no Chile e na Argentina nos dias anteriores, acompanhados da banda amiga Uniform, de Nova Iorque. No Brasil, o evento da ND Productions também contou com a banda magnólia na abertura, que assume abertamente a influência do Orchid.
Então a lebre realiza seu sonho: a catarse de magnólia

A abertura da casa estava marcada para as 18h30, apenas 30 minutos antes do primeiro show, e já havia público esperando para entrar horas antes. A entrada atrasou um pouco, mas isso não impediu que a casa já estivesse cheia quando o quinteto magnólia subiu ao palco, pouco depois das 19h.
Acabei me atrasando no transporte e cheguei já na metade da apresentação, mas, por sorte, o amigo Bernardo estava desde o início colado no palco e pôde me repassar suas impressões do show (e agradeço muito por isso).
Caru, vocalista principal, ressaltou diversas vezes o sonho que estava sendo realizado ao tocar junto do Orchid. E o público correspondia tanto com gritos quanto com choro. Cheguei a presenciar mais de uma pessoa completamente emocionada com a apresentação (e o Bernardo viu o mesmo), além de outras que cantavam palavra por palavra e que participavam de pequenos moshs (rodinhas) que inauguraram a prática no dia.
Por questões de recursos e produção, o som do grupo no fone de ouvido soa mais etéreo e atmosférico, fundindo elementos do shoegaze com o screamo em português. Ao vivo, porém, as coisas são diferentes: tudo soa mais caótico, performático (com a habitual maquiagem temática) e intenso.
Após a música “Então a lebre vomita seu próprio coração”, a banda foi muito ovacionada, com aplausos, gritos e o já esperado coro pedindo por mais uma música. Caru chegou a perguntar à produção se haveria tempo para um encore, mas infelizmente o pedido foi negado.
O magnólia provavelmente foi a melhor escolha possível para o evento e quebrou qualquer estigma de que show de abertura é apenas um “esquenta”. Foi uma apresentação que cativou a ida mais cedo e que provavelmente ganhou o coração de muita gente que não tinha tido tanto entusiasmo o som nos streamings.
Setlist:
Lobo
Andorinha Perdida
Peta, o Último Buxinho
Camaleão
As Mágoas do Circo
Os Pais de Pipo
Ainda Vai Passar, Peixinho
Então a Lebre Vomita Seu Próprio Coração
Ossos e cordas quebradas no show do Uniform

Desde a reta final do show do Magnólia, eu já estava posicionado na lateral do palco (literalmente com a mão apoiada em seu chão) à espera do Uniform, que se apresentaria por volta das 20h. Durante esse tempo, dava para ouvir pelas caixas de som a passagem de teste, com os berros do vocalista e os ajustes de volume.
Era um show que me deixava bastante curioso, pois se tratava de um som bem diferente – uma mistura de hardcore e metal com elementos industriais – executado por apenas duas pessoas: um vocalista (com o braço quebrado) e um guitarrista.
Em outras apresentações, o grupo chegou a tocar com dois bateristas no palco, mas a turnê pela América do Sul, por algum motivo, não contou com nenhum. No início, a apresentação causou certa estranheza (talvez por essa configuração) em um público que parecia tímido, apenas balançando a cabeça no ritmo das músicas e reagindo pontualmente aos discursos antissistema do duo.
Após duas ou três músicas e com a agitação contagiante das caretas e expressões do vocalista Michael Berdan, a banda conquistou a plateia, e as rodinhas se tornaram mais frequentes no meio da pista. Ainda houve tempo para um cover industrial de “Symptom of the Universe” (Black Sabbath), antes de o guitarrista estourar todas as cordas do instrumento de forma épica e o show se encerrar, com pouco mais de meia hora de duração.
No final, o sentimento que predominou foi algo como “esses caras são insanos”, reforçado pela cena da banda deixando o palco após reverenciar os nomes do Orchid e do Magnólia, e abandonando uma guitarra completamente destruída no chão.
Setlist:
The Killing of America
The Light at the End (Cause)
Night of Fear
Tabloid
Bootlicker
Symptom of the Universe (Black Sabbath cover)
Chaos Is Me: a primeira e última vez do Orchid no Brasil

O Orchid é uma banda de nicho, mas com uma importância e um impacto musical imensuráveis. E seu público sabe disso. Tanto que o evento esgotou todos os ingressos no próprio dia e contou com caravanas e pessoas vindas de outras cidades e regiões apenas para estar no Hangar 110. Na fila, encontrei pessoas de Santos, do litoral paulista, do Rio de Janeiro e de diferentes partes do Sul do país.
Cidades diferentes, mas um desejo em comum: presenciar uma despedida histórica. É bem provável que todos também compartilhassem outros sentimentos, como empolgação e entusiasmo ao ver a banda subir ao palco por volta das 21h, com punhos fechados erguidos para o alto.
Com um setlist de mais de 20 músicas, o Orchid levou o público à loucura desde os primeiros instantes. Exceção foram os momentos em que ninguém subia no palco para pular no público (o famoso stage dive). Eu mesmo me empolguei e tive que repetir o gesto umas 5 vezes antes da minha falta de ar quase acabar comigo.
As rodinhas eram constantes – e não poderia ser diferente. O manifesto político do Orchid é totalmente propício a isso. O público berrava cada palavra junto, a começar “Lights Out”, no refrão repetido: “And you are, you are, you are”.
A ação só dava uma pausa quando o vocalista Jay Green parava para passar suas mensagens antifascistas, contra bilionários e de condenação à opressão. Em diversos momentos, ele também se posicionou nas laterais do palco para dar a mão ao público e ajudar pessoas a subir. Além disso, mostrou todo seu carisma ao puxar um leque com as cores da bandeira LGBT para se abanar do calor intenso dentro da casa – em contraste com o tempo do lado de fora.
Após os encerramentos com “I Am Nietzsche” e “…And the Cat Turned to Smoke”, o público invadiu o palco para pegar setlists e abraçar os músicos. Um garoto ao meu lado chegou a levar sua versão em disco de Dance “Tonight! Revolution Tomorrow!” (200) para conseguir autógrafos.
Quem esteve presente no Hangar 110 no dia 24 de janeiro de 2025 viveu algo histórico, digno de jamais ser esquecido.
Setlist:
Aesthetic Dialectic
Lights Out
A visit from Dr. Goodsex
Destination: Blood
The Action Index
Don’t Rat Out Your Friends
Loft Party
I Wanna Fight
Framecode
Epilogue of a Car crash
Ding Dong Dead
Invasion U.S.A
Tigers
Weekend at the Fire Academy
Trail of the Unknown Body
New Ideas in Mathematics
Death of a Modernist
We Love Prison
Eyes Gouger
None More Black
Amherst Pandemonium, Pt 1
Amherst Pandemonium, Pt 2
NJ vs. Valhalla
Anais Nin by Numbers
I Am Nietzsche
…And the Cat Turned to Smoke
Um agradecimento especial a Daniel Agapito (dhpito@) e ao site Rato de Show (ratodeshow@) pelas fotos, e novamente ao amigo Bernardo pelos diferentes pontos de vista e registros do evento.





