“Come to Brazil… and here we fucking are”: Fall of Troy estreia em São Paulo em uma noite de catarse coletiva

Power trio de post-hardcore e mathcore fez sua estreia no carioca clube no último domingo (8)

Atualizado em: março 9, 2026 às 3:50 pm

São Paulo acordou no último domingo (8) com um clima meio estranho, alternando entre um sol tímido e grandes doses de chuva passageira. O dia, porém, marcava ocasiões especiais – do Dia das Mulheres à final dos campeonatos estaduais – e, é claro, a estreia do Fall of Troy no Brasil.

A banda estadunidense está em uma turnê inédita pela América Latina e passou por México, Chile e Argentina antes de chegar ao Carioca Club, onde foi recebida por um público considerável que esperou por muitos anos pela vinda do trio.

A ansiedade era tanta que também me contagiou. Cheguei aos arredores por volta das 18h e entrei na casa meia hora depois. Faltando mais de uma hora para o início do show, a pista ainda estava dispersa, tomada pela discoteca grunge e alternativa da casa.

O merch, porém, já fazia muito sucesso. Na verdade, foi um ponto bastante requisitado até mesmo durante a apresentação. As camisetas quase se esgotaram por completo e também havia cópias do disco “Manipulator (2008) à venda.

Quando deu sete e meia da noite, o Carioca Club finalmente ganhou mais público. As pessoas começaram a povoar a pista até quase o fundo da casa, com uma variedade de idades e camisas pretas de banda – muitas delas, é claro, com estampas do próprio Fall of Troy.

O momento em que a espera finalmente acabou

Apesar de não ter dado “sold out”, a casa encheu a pista na hora do show — Foto por Cosequi Fotografia @photos.cosequi

Exatamente às 20h, o trio formado por Thomas Erak, Andrew Forsman (com uniforme da seleção brasileira) e John-Henry Batts marcou sua pontualidade ao subir em um palco temático de cor neon. O público logo foi ao delírio com a intro quebrada de “Mouths Like Sidewinder Missiles” – um dos grandes clássicos da banda. Era quase mágico ver que aquilo realmente estava acontecendo diante dos nossos olhos.

E, de certa forma, ainda parecia meio inacreditável – seja pela realização de um sonho coletivo ou pelo que o trio estava fazendo em cima do palco. Comentei com um amigo, Alexandre, que estava ao meu lado, que o Fall of Troy parecia uma espécie de Rush ou Dream Theater que gosta de hardcore e screamo. Pode soar como brincadeira, mas era sério.

Thomas Erak fez o inacreditável na guitarra. E não há outra palavra que eu possa usar para descrever o que aconteceu. O cara praticamente reinventa o instrumento e ainda canta e berra nos vocais com a ajuda do baixista John-Henry Batts, que assume as linhas mais graves. O baterista Andrew Forsman também é outro show à parte, apesar de ficar mais ao fundo do palco. Suas criações fogem do senso comum e mostram a soma de uma criatividade inesgotável com uma energia constante. Um drum cam de sua apresentação seria incrível.

Quando se ouve o Fall of Troy no fone de ouvido, a banda parece multiplicar sua presença para além de um trio, trabalhando diferentes texturas musicais que soam completas. Esse sentimento se repete ao vivo e chega a ser surpreendente, porque eles realmente conseguem reproduzir tudo aquilo com maestria. O público respondia a isso com um misto de catarse (visível nas rodinhas ao lado esquerdo da pista e na galera pulando freneticamente) e uma certa sensação de espanto. Eu mesmo soltei involuntariamente vários “caralho”, “puta que pariu” e “foda” em diversos trechos.

Thomas e John se dividem entre os gritos mais graves ou agudos — Foto por Cosequi Fotografia @photos.cosequi

Um momento marcante veio em “I Just Got This Symphony Goin’”, que tomou a pista pelos cantos de “We’re whole again / You were my pride / But where you have been?” e pelos berros que vieram depois, assim como pela celebração durante o icônico solo de Thomas. O guitarrista, aliás, se dirigiu ao público diversas vezes durante a apresentação, fazendo gestos com a mão, levantando seu copo com mel (ou hidromel?) e trocando risadas com os companheiros de palco.

Ele também fez questão de responder a cada grito coletivo. Quando a plateia puxou o tradicional canto com o nome da banda, a resposta foi “São Paolo, São Paolo”, reverenciando a cidade com seu sotaque estadunidense; já para o inevitável “Come to Brazil”, a emenda veio imediata: “…And here we fucking are”.

Mas o público não foi agraciado apenas com o carisma do grupo, como também com um setlist diverso que percorreu grande parte da trajetória do trio. Apesar do aniversariante “Doppelgänger e do álbum de estreia aparecerem com mais frequência, também foi possível ouvir músicas de “Manipulator (2007), Phantom on the Horizon (2008), In the Unlikely Event (2009)e até do mais recente Mukiltearth (2020) – que reúne regravação de composições antigas.

O repertório mostrou que o Fall of Troy é intenso, complexo, técnico, energético e também muito pesado quando quer ser (“Straight-Jacket Keelhauled“, “The Adventures of Allan Gordon” e ” “Sledgehammer” mostram isso bem. Além disso, é certamente catártico, sobretudo no hit “F.C.P.R.E.M.I.X”, que fechou a noite ao embalo de um público que cantava cada verso enquanto se empurrava nas rodas.

Aproveitei para acompanhar esse momento ainda mais de perto (principalmente porque fui jogado para a frente do palco no momento de maior energia), onde presenciei a despedida do trio com a habitual distribuição de palhetas e baquetas. Ao pedirem mais itens, o baterista Andrew quase jogou (de brincadeira) o microfone para a galera.

O Fall of Troy é uma daquelas bandas que mereciam receber mais reconhecimento e que definitivamente têm o poder de marcar as pessoas – seja pelo evento realizado pela Overload no último domingo ou por suas composições matemáticas e quase esquizofrênicas.

Já no metrô, voltando para casa, fiz uma amizade que evidencia isso muito bem: André Piñata (ex-banda Amargo), músico e compositor que, em suas palavras, “aprendeu a tocar guitarra com as linhas de Thomas Erak”.

Setlist

Mouths Like Sidewinder Missiles
The Hol[ ]y Tape…
 Laces Out, Dan!
 The Adventures of Allan Gordon
 I Just Got This Symphony Goin’
Chapter III: Nostalgic Mannerisms
Cut Down All the Trees and Name the Streets After Them
Ex-Creations
Sledgehammer
We Better Learn to Hotwire a Uterus
 Straight-Jacket Keelhauled
Chain Wallet, Nike Shoes
Knife Fight at the Mormon Church
“You Got a Death Wish, Johnny Truant?”
Chapter I: Introverting Dimensions 
Reassurance Rests in the Sea
Chapter I: Introverting Dimensions (continuação)
Whacko Jacko Steals the Elephant Man’s Bones
F.C.P.R.E.M.I.X.

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Arthur Coelho
Jornalista, baterista e apaixonado por música de todo tipo, principalmente se tiver gritaria. Também conhecido como Art ou Tuco.

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