Atualizado em: fevereiro 19, 2026 às 6:47 am
Nas semanas passadas, fizemos um apanhado geral sobre a origem do post-rock, suas fases e alguns de seus discos seminais. Hoje, é hora de trazer essa conversa para mais perto e observar como o gênero se desenvolveu no Brasil, destacando alguns pontos relevantes e ótimos discos que nos ajudam a entender sua trajetória por aqui.
A primeira fase de maior relevância do post-rock em território nacional coincide, em termos históricos, com a segunda fase do gênero no cenário internacional. Era um momento em que o termo “post-rock” já circulava com mais força nas mídias especializadas e passava a designar algo mais específico do que apenas “rock experimental”.
Mais precisamente, isso acontece no início dos anos 2000, com uma geração que havia tido contato direto com os discos fundamentais do estilo lançados entre o fim dos anos 1980 e os anos 1990 – ou que já produzia música fora das estruturas tradicionais do rock e, a partir daquele momento, encontrava no rótulo um lugar possível para descrever seu som.
Um marco importante desse reconhecimento foi uma reportagem do jornalista Bruno Yutaka Saito, publicada na Folha de S.Paulo em julho de 2007, que falava sobre uma nova cena de “rock esquisitão”: uma música que misturava diversos estilos e que não cabia em nenhuma categoria pré-existente. Entre os nomes citados estavam Lavoura Eletro, Guizado, Mamma Cadela e Hurtmold, grupo formado em 1998, em São Paulo, e que já aparecia com frequência em matérias da grande mídia desde 2005.
Bandas como essas (e outras que surgiriam em seguida) ajudam a evidenciar algo: o post-rock brasileiro desenvolveu uma identidade muito própria. Trata-se de um estilo que se manteve aberto à improvisação, ao uso de elementos digitais e a instrumentos pouco convencionais. O próprio Hurtmold, por exemplo, incorpora teclados, escaleta, clarinete e percussões que vão muito além da bateria tradicional.
E isso não é pouca coisa. De certa forma, essa abordagem foi na contramão da tendência global do gênero naquele período, quando o post-rock se tornava cada vez mais atmosférico, próximo do shoegaze e esteticamente mais coeso. Talvez por isso, muitos discos brasileiros da época poderiam facilmente figurar como referências globais do estilo – a começar por “Cozido” (2003) e “Mestro” (2005), do Hurtmold.
Outros nomes e discos influentes dos anos 2000′
Também é impossível não citar o trio Macaco Bong, responsável pelo consagrado “Artista Igual Pedreiro” (2008), um disco que rompeu barreiras e projetou a banda também no cenário internacional. Mais recentemente, no ano passado, o grupo lançou o ótimo EP “Pico d’ Maquete“.
Ainda em 2008, tivemos “Praia“, do ruído/mm, trabalho que pende para um lado mais introspectivo e melancólico do post-rock. A banda curitibana, inclusive, já foi apontada como uma das principais influências dos conterrâneos do Terraplana, nome de destaque do shoegaze nacional.
Avançando na década, o grupo Mahmed, de Natal, surge como um dos projetos mais impactantes e fora da curva do gênero. Em “Sobre a Vida em Comunidade” (2015), a banda combina jazz, samples, eletrônicos e uma abordagem próxima do indie rock. A faixa “Vale das Rosas” é um ótimo ponto de entrada para compreender um pouco mais da profundidade do grupo.
O Labirinto costuma ser associado ao post-metal, mas é possível afirmar que ao menos em “Anatema” (2010) há um diálogo mais forte com o post-rock. O trabalho é revestido de elementos sinfônicos, tensão constante e um peso que também flerta com o doom.
Outro nome que amplia ainda mais os limites do estilo é o Kalouv, que mistura referências que vão do synth pop a trilhas sonoras de videogames. A faixa “Hotline Miami”, presente em “Elã” (2017), é um exemplo claro disso. Já o EP “A Medida da Distância” (2021) aposta em atmosferas intensas que são capazes de causar arrepios.
Essa última descrição também vale para “Sobre o Pleno e o Nada” (2016), do Long Tomorrow, disco melancólico e fortemente influenciado pelo shoegaze. Ouvi-lo é como percorrer os lugares mais frios e silenciosos de sua própria cidade.
Em “Fundação” (2018), o E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante apresenta um trabalho que explora uma ampla gama de emoções a partir de diferentes texturas sonoras. A banda, inclusive, voltou a aparecer recentemente com o EP Linguagem (2023), que foi tema de uma indicação aqui no site.
O Quarto Sensorial é outro nome que não pode ficar de fora. O trio instrumental combina jazz e punk de maneira inovadora dentro do cenário brasileiro. “Escapista” (2019) traduz bem essa proposta e ainda os aproxima do metal em vários momentos.
Atualidade
De 2020 em diante, o post-rock brasileiro segue versátil e disruptivo, mesmo com o crescimento de uma estética mais espacial e ruidosa – algo que se tornou tendência no cenário alternativo como um todo, para além de refletir novas formas e limitações de produção e gravação.
Desde o início da década, o projeto throe vem lançando músicas que transitam entre o post-rock e o metal, incorporando sintetizadores e múltiplas camadas de textura. É um dos nomes mais singulares do gênero atualmente, ao lado do hoovaranas, de Ponta Grossa (PR), que lançou o complexo e instigante “Três” (2024). A faixa de abertura, “Fuga”, já deixa claro que se trata de algo fora do comum.
Vale destacar também bandas que apostam no post-rock com vocais, em uma abordagem menos usual dentro do estilo. O gurpo chvvv, que em 2023 passou por mudanças na formação vocal e adicionou flauta às composições, faz isso desde 2022. O mesmo acontece com a terra vai se tornar um planeta inabitável, especialmente em suas faixas mais recentes.






