Atualizado em: fevereiro 10, 2026 às 7:11 am
Não tem como falar de música experimental e post-rock sem citar o Tortoise. A banda de Chicago surgiu no início dos anos 1990, lançou seu disco de estreia quatro anos depois e, em seguida, apresentou aquele que ainda hoje – quase 30 anos depois – segue sendo um dos álbuns mais criativos da música contemporânea.
Trata-se de “Millions Now Living Will Never Die“ (1996): um trabalho de apenas seis faixas e 42 minutos de duração, concebido em uma Chicago marcada pela recessão econômica e pelo desmonte das políticas públicas da era Reagan. Em meio a esse cenário, a cena artística DIY funcionava como espaço de resistência e reinvenção, um terreno fértil para a criação do disco.
Nada ali soava como o que se fazia na época. “Millions” é uma combinação improvável de jazz, samples, minimalismo, batidas de hip-hop e instrumentos pouco convencionais dentro do rock. Uma obra que não se encaixava em rótulos fáceis e que parecia ignorar qualquer expectativa de formato.
Membros do Tortoise já afirmaram diversas vezes que a ideia da banda sempre foi criar música rock interessante sem depender dos marcos familiares e dos clichês do gênero. E é justamente daí que surge a pergunta central:
Como eles conseguiram fazer algo tão novo?
Parte da resposta está na própria dinâmica de gravação e ensaio do grupo. O novo só pode vir de quem consegue enxergar além das tendências do seu tempo – e ousa ir além delas. Como relembrou o The Guardian em entrevista com a banda, o Tortoise começou como um projeto de Doug McCombs (baixo) e John Herndon (bateria), baseado em jams livres e sem compromisso, com forte ênfase rítmica.
Com o tempo, a ideia evoluiu. Novos músicos foram incorporados, e o apartamento da dupla se transformou em um verdadeiro estúdio caseiro: um reduto de improvisações e experimentações que misturavam estilos, influências e ideias ainda em estado bruto. Esse ambiente foi fundamental para a construção dos primeiros discos.
Em uma reportagem publicada 20 anos após o lançamento do álbum, a BBC relembrou que a gestação das músicas de “Millions” ocorreu durante um período de isolamento da banda em uma cidade ao norte do estado de Vermont. Apenas mais tarde o material foi gravado, mixado e finalizado em Chicago.
O resultado foi revolucionário. Um disco que se tornou um dos grandes marcos do post-rock, absorvendo elementos do rock alternativo e do hip-hop em ascensão, e fundindo tudo isso a eletrônicos, jazz e improvisações minimalistas.
“Cada vez que fazíamos uma dessas gravações, nos surpreendíamos com o quanto podíamos sair da nossa zona de conforto e ainda assim obter bons resultados. Independentemente de uma ideia estar bem desenvolvida ou não, sabíamos que poderíamos fazer algo com ela”, disse McCombs em entrevista.
Uma história em cada faixa
A faixa de abertura, “Djed”, é uma síntese monumental de tudo isso (e muito mais). Com quase 21 minutos de duração, a música funciona como uma gigantesca colagem sonora, uma obra retrabalhada a partir de diferentes tecidos e tintas. O próprio baixista já descreveu a faixa como a junção criativa de três ou quatro ideias parciais organizadas em uma única estrutura.
A primeira dessas ideias é o protagonismo da cozinha (baixo e bateria) na construção de um groove funkeado que se estende por cerca de sete minutos, até perder força e se transformar em um beat de rap, envolto em efeitos sonoros.
Em seguida, a música assume um caráter quase onírico: instrumentos como marimba e vibrafone ganham destaque, criando sensações doces e nostálgicas. Essa parte de “Djed” soa como uma overdose de açúcar delicada e que leva à respiração profunda.
Após efeitos que simulam falhas de transmissão (como um fone Bluetooth perdendo conexão), ocorre mais uma virada radical. O som se torna ainda mais minimalista, especialmente nas guitarras. A bateria passa a ser vocalizada com os ritmos saindo dos lábios, enquanto efeitos que remetem a fliperamas surgem até a despedida em fade out.
Essa estrutura fragmentada de três ou mais partes representa o auge do trabalho “Djed” ocupa quase metade do disco e serve como um lembrete poderoso de que a música é um território livre.
Na sequência, “Glass Museum” mantém o nível de influência e dialoga diretamente com o post-rock atmosférico. Seu groove cresce e se retrai lentamente, até que, próximo ao fim, o jazz fusion emerge com viradas de bateria intensas que apenas são interrompidas quando a música retorna aos ritmos iniciais.
“A Survey” resgata a abordagem minimalista com um baixo solitário que ameaça construir algo ao lado de um som que remete ao canto de grilos. Já “The Taut and Tame” parece completar esse esboço melódico, adicionando novos instrumentos e camadas de efeitos.
Em “Dear Grandma and Grandpa”, a carta aos avós ganha contornos futuristas e atemporais – algo impressionante para um disco lançado em 1996. “Along the Banks of Rivers”, por sua vez, encerra o álbum com um retorno ao passado: um jazz noir que remete aos anos 1960, carregado de charme e mistério.
Um álbum que rompe barreiras, mesmo após 30 anos
“Millions Now Living Will Never Die” é um disco viajante e inigualável, que rompe métricas, estilos e expectativas. Seu legado se concentra fortemente em “Djed”, faixa que influenciou gerações inteiras de artistas, mas se estende por todo o compilado, que é marcado por criatividade, improviso e técnica refinada.
Não por acaso, o veículo Outersound creditou o Tortoise como “padrinhos do movimento post-rock”, enquanto o Stereogum afirmou que “Millions” foi para o post-rock o que Nevermind foi para o grunge: “um auge singular que definiu uma nova onda musical”.





