Livros & Música: “Nós Somos A Tempestade, Conversas Sobre o Metal Alternativo dos EUA”

Em entrevista com membros de Neurosis, Mastodon, Melvins, Converge e outros grandes nomes, o livro compila entrevistas com nomes que são cruciais para entender um pouco mais sobre o que foi e é a cena de Metal Alternativo nos Estados Unidos

Atualizado em: janeiro 28, 2026 às 8:21 am

Em um certo fim de tarde de janeiro, eu descia a famosa rua Augusta, em São Paulo, em direção a um dos lugares que mais frequento na região (e na cidade): a loja de livros e quadrinhos independentes UGRA, que fica dentro da Galeria Ouro Velho.

Lembro também de estar ouvindo algo do Mastodon naquele momento em que cumprimentava a atendente e descia as escadas para a  parte subterrânea do local. Lá, enquanto dava uma olhada geral na sessão de música, me deparei com um livro de capa amarela e preta que me chamou muita atenção por ter em sua chamada o nome de várias bandas que eu curtia na época –  Melvins, Neurosis, Converge e o próprio Mastodon, que se mantinha no fone.

O livro em questão era “Nós Somos a Tempestade: Conversas Sobre o Metal Alternativo dos EUA“, escrito pelo jornalista e músico brasileiro Luiz Mazetto e que foi lançado pela editora ideal dentro do selo Mondo Massari. Ver algo assim naquele momento foi algo que me encantou e me deixo super feliz. Parecia (e era) uma raridade ver uma obra que falava de um nicho que é tão pouco escrito – e ainda menos impresso – no Brasil.

“Nós Somos a Tempestade” teve um grande impacto na minha vida. Tanto é que eu me lembro até hoje do dia em que me deparei com a obra, mesmo tendo o que alguns amigos carinhosamente chamam de “uma bela memória de peixe”.

 

Através de quase 300 páginas inteiradas no assunto, fui apresentado a um punhado de bandas novas que apenas no futuro – através da leitura, audição e pesquisa – eu viria a entender que são simplesmente seminais dentro do metal alternativo e que impactaram diretamente outras bandas que eu  já curtia.

Nesse sentido, vale mencionar a estrutura do livro, que está organizada em capítulos temáticas de cada gênero: Noise, Stoner, Doom, Post Metal, Sludge etc, que são compostos por três entrevistas de artistas que desempenham papel crucial no devido estilo. Citando algumas bandas que participaram, temos Black Flag (Chuck Dukowski), Neurosis (Scott Kelly), Baroness (John Baizkey), ISIS (Aaron Harris), Melvins (Buz Osborne) e outros nomes que te fazem pensar: “Como será que ele conseguiu falar com esse cara?“.

E na boa, que bom que o Luiz conseguiu todo esse material, porque ele é um grande compilado de conversas e diálogos com artistas de grande importância e que são feitos por um entrevistador (e fã) que sabe exatamente o que e para quem está perguntando.

Vale também ressaltar que o livro não é apenas sobre um determinado número de bandas, suas influências, planos e discografia. Ele é, principalmente, sobre uma cena musical. E isso significa ir além do autobiográfico e expandir o conteúdo com debates que também envolvem registros da indústria musical e suas dinâmicas inconsistentes.

A maioria das entrevistas foram feitas em 2013, no exato momento de transição entre o consumo musical físico (CD) para o digital, no computador. Assim como também a passagem do consumo pago para o gratuito através da pirataria, que logo mais viria a ser captada e apropriada por plataformas centralizadas, com os streamings de Youtube e Spotify.

E essa é uma questão pertinente aqui, pois puxa diversos pontos de vista, projeções e diagnósticos de um número relevante de pessoas que estão sendo diretamente impactadas por essas mudanças, seja como músicos ou também como donos de gravadoras – que é o caso de Aaron Turner (ISIS), que havia acabado de anunciar o fim da Hydra Head Records, que lançara diversas bandas importantes para a cena alternativa do metal.

Apenas fico curioso para saber o que as mesmas figuras diriam sobre as dinâmicas atuais da indústria, que é, em grande parte, voltada para as métricas do consumo de redes-sociais e da hegemonia Spotify, que paga valores ínfimos (isso, quando paga alguma coisa) por streaming.

“Nós Somos a Tempestade” é uma leitura obrigatória para quem sair do superficial no gênero do metal e isso vale tanto para quem já curte alguma das bandas que fazem parte de seu conteúdo, como também para quem não conhece nenhuma delas. Pois, também não deixa de ser uma forma divertida de conhecer artistas diferentes: Kylesa, Pelican, Today is the Day e Coliseum, para citar alguns dos quais nunca tinha ouvido e acabei me aprofundando.

 

 

Esse foi o primeiro texto do nosso quadro de resenhas e relatos de livros que, de alguma forma, envolvem música e eu gostaria de fechar fazendo um agradecimento especial ao autor Luiz Mazetto pela imersão que seu livro é capaz de trazer e pelos impactos registrados em minha vida de ouvinte, leitor, músico e escritor.  Diretamente ou indiretamente, seu livro me serviu como um guia que me apresentou novas direções musicais que busco conhecer mais até os dias de hoje.

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Arthur Coelho
Jornalista, baterista e apaixonado por música de todo tipo, principalmente se tiver gritaria. Também conhecido como Art ou Tuco.

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