Livros & Música: “Uma Dose Para o Santo: Deus e o diabo nas gravações de Whiskey for the Holy Ghost”

A inusitada e profunda história de Mark Lanegan, ícone do Screaming Trees, em busca de sua obra-prima na carreira solo

Atualizado em: fevereiro 26, 2026 às 7:49 am

Imagine um disco que levou quase três anos para ser concluído. Só essa informação já sugere um processo caótico e perfeccionista, mas há mais: o álbum contou com a participação de 15 músicos, quatro engenheiros de som e dois produtores. E, como se não bastasse, quase foi descartado em um riacho por seu próprio idealizador. Parece enredo até enredo de livro – e, de certo modo, é mesmo.

Esses são alguns dos bastidores do intenso processo de criação de “Whiskey for the Holy Ghost” (1994), segundo álbum solo do rouco e marcante cantor Mark Lanegan, que naquele momento já demonstrava cansaço em relação aos caminhos grunge de sua banda, o Screaming Trees (que é sensacional!!!!).

Essas histórias estão reunidas em Uma Dose Para o Santo: Deus e o Diabo nas Gravações de Whiskey for the Holy Ghost, escrito pelo jornalista e redator gaúcho Leonardo Tissot ( também colaborador do site Scream & Yell desde 2018) e lançado em 2025 pela editora Editora Barbante.

O livro integra a coleção Sound + Vision, que convida autores a escreverem sobre seus álbuns favoritos em diálogo com artistas visuais responsáveis por ilustrar diferentes trechos da obra. Enfim chegou a vez de Mark Lanegan ter aquele que talvez seja seu trabalho mais perfeccionista analisado de forma profunda.

A belíssima capa de um livro que quase cabe no bolso
Kurt Cobain morreu no dia 5 de abril de 1994, quando seu amigo Mark Lanegan tinha 30 anos. Ambos mantinham uma relação muito próxima desde os anos 80

Estruturalmente, a obra combina diferentes abordagens: pesquisa baseada em livros e entrevistas – algumas conduzidas pelo próprio autor – com elementos típicos da crítica musical em resenha. Cada uma das 13 faixas do álbum ganha um capítulo temático, permitindo que o disco seja destrinchado faixa a faixa, com atenção aos detalhes de composição, gravação e contexto.

Uma Dose Para o Santo é um livro curto, mas completo. Seus detalhes minuciosos fazem diferença ao contextualizar tanto a cena musical da época quanto o momento pessoal vivido por Lanegan. Um exemplo disso é o resgate do papel crucial de Mike Johnson, guitarrista do Dinosaur Jr, além de outras figuras fundamentais no processo de criação. Artistas que, em muitas resenhas, receberiam apenas uma menção passageira, aqui ganham a devida profundidade.

Outro ponto interessante é o mapeamento das influências que ajudaram a moldar o disco, tanto em termos sonoros quanto estéticos. Musicalmente, “Whiskey for the Holy Ghost” representa a tentativa bem-sucedida de um artista associado ao rock alternativo grunge dos anos 1990 de se aproximar da música que verdadeiramente o movia: o blues.

Mas não um blues genérico. Trata-se de um blues sofisticado tomado pela identidade singular de Lanegan – áspera, sombria e introspectiva – que busca desconstruir clichês do gênero e também se conectar com o country e o folk. Seu objetivo não era apenas superar o disco de estreia, “The Winding Sheet” (1990), mas criar uma obra-prima à altura de sua grande inspiração: “Astral Weeks”, de Van Morrison.

A inusitada cena onde Mark tenta jogar fora as fitas masters com o trabalho do disco. Felizmente, ele foi impedido

 

O livro também se arrisca em uma leitura semiótica do álbum ao revisitar a infância cristã do cantor – elemento que atravessa todo o compilado, da capa ao título e aos nomes das faixas – e ao relacioná-la a outras referências do imaginário de Lanegan, como o romance de faroeste Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy.

Esses elementos aprofundam a leitura e cumprem a promessa central da coleção: dissecar uma obra em seus diferentes níveis. Mais do que isso, a escrita de Leonardo Tissot reconstrói a atmosfera de cada faixa com a sensibilidade que um fã, que também é crítico, trataria a obra.

O resultado é uma imersão completa no universo do álbum. Os relatos da época se misturam às impressões do autor e aos devaneios criativos dos músicos, enquanto as ilustrações de Diego Gerlach funcionam como uma HQ à parte, expandindo visualmente a experiência proposta pelo texto.

Nesse sentido, Uma Dose Para o Santo é um livro que transporta o leitor no tempo e o convida à repetição: ouvir e reouvir o disco, ler e reler o livro, combinando ambos os exercícios – de preferência com um bom uísque e algumas preces para Deus e o diabo.

 

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Arthur Coelho
Jornalista, baterista e apaixonado por música de todo tipo, principalmente se tiver gritaria. Também conhecido como Art ou Tuco.

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