No pós-Carnaval, lllucas, Jardim Depressa e Morro Fuji ocupam a Porta Maldita

Bandas paulistas transformaram a noite da última sexta-feira (21) em um encontro de carisma, intensidade e rock alternativo

Atualizado em: fevereiro 24, 2026 às 6:21 am

São Paulo parece nunca desligar, principalmente no mês de fevereiro. Entre o pré, o auge e o pós-Carnaval, a cidade parece funcionar em um estado constante de celebrações e eventos culturais, com bloquinhos e apresentações espalhados por todos os cantos.

Mas nem toda celebração vem com confete e marchinha. Enquanto a cidade ainda se recuperava da ressaca do grande feriado, outro tipo de celebração acontecia na última sexta-feira (21), com o protagonismo do rock paulista alternativo e independente.

Quem abrigou essa reunião foi a casa noturna Porta Maldita, localizada em Pinheiros (quase no Beco do Batman), com apresentações de lllucas, Jardim Depressa e Morro Fuji marcadas a partir das 21h – embora, a pontualidade não seja exatamente uma regra rígida ali.

O local possui uma entrada discreta na calçada da rua Luís Murat, próxima a outros bares, e é fácil passar direto sem perceber. Mas não se engane: a Porta Maldita é, provavelmente, um dos melhores lugares para assistir a shows independentes e nichados em São Paulo.

Mesmo pequeno e dividindo espaço com uma sala de drinks e uma sacada, a casa conta com acústica de qualidade e uma estrutura muito acima da média para locais de lotação semelhante. Há ainda uma organização curiosa no palco levemente elevado: a bateria, que normalmente fica ao fundo, ali ocupa a lateral, permitindo uma visão ampla do público e da execução das músicas. Essa característica, aliada à qualidade sonora, fez uma diferença e tanto nas apresentações da noite.

Entre drinks e reverbs, lllucas encanta na abertura da noite

Faltando poucos minutos para as 22h30, lllucas deu início à primeira apresentação. O projeto é comandado pelo guitarrista e vocalista Lucas Rocha, que também integra o psicodélico e divertido Cidade Dormitório (que já foi tema de um dos quadros de indicação do site).

Seu repertório dialoga com influências presentes na outra banda, mas em uma abordagem mais intimista e atmosférica. A apresentação ganhou ainda mais charme com os efeitos de reverb adicionados por Tuta (Arthur Amaral) – idealizador do espaço e responsável pela mesa de som –, que foi reverenciado durante as três apresentações da noite.

A abertura ficou por conta de “Lauro, Sem Sorte”, uma das primeiras faixas do projeto, do período em que a bateria de Caio Felliputti ainda era programada em MIDI (tecnologia que permite a leitura digital de notas por softwares de produção) – lembrança contada com humor pelo grupo.

Em quase 40 minutos de show, o repertório percorreu cerca de 11 músicas, transitando entre composições mais antigas e faixas recentes, como “Teto Preto” e “Cpv”, esta última em colaboração com a Cidade Dormitório.

Um detalhe curioso: o guitarrista Danilo Bento fazia ali sua estreia ao lado de Lucas, Felliputti e Caio Campos (baixo) – e precisou aprender todo o repertório em apenas um dia. Aliás, guarde bem o nome dele, porque jajá ele vai aparecer aqui novamente.

Antes de se despedir, o carismático vocalista ainda revelou que há novidades a caminho, com uma nova música “talvez lançada no próximo mês”, além de agradecer ao público presente.

Setlist enviado por Lucas Rocha:

  1. Lauro, Sem Sorte
  2. Amar é ensinar Nero a pôr fogo em si mesmo
  3. Azul
  4. Pequena Teoria da dilatação temporal
  5. Controle, mil botões abstratos
  6. CPV
  7. Teto Preto
  8. Talvez eu pudesse comer meu próprio coração se ele tivesse o mesmo gosto do seu
  9. Hematomas
  10. Creme Azedo
  11. Protótipo Incansável

Jardim Depressa vai da introspecção à catarse explosiva

Após um breve intervalo, já por volta das 23h20, o Jardim Depressa iniciou sua apresentação com as primeiras notas de “Azul”, faixa de destaque do EP de estreia “JD.”, lançado de forma independente em 2024.

Daí em diante, o quarteto construiu transições com passagens instrumentais que ampliaram a imersão do público nas músicas executadas por Luis Petrachin (voz e guitarra), Raphael Vale (bateria), Tuba (baixo) e Danilo Bento (lembra dele?) na guitarra e também nos apoios vocais.

O som introspectivo ganhou contornos de catarse coletiva, especialmente no refrão da música mais conhecida do grupo de Osasco: “Será que vai doer? Quando eu perceber que é seu nome?”. A resposta parecia vir do coro formado em frente ao palco.

Entre cantorias, dança e alguns pulos mais empolgados, o grupo ainda explorou jams psicodélicas que incluíram troca de instrumentos, com Tuba assumindo a guitarra, e um solo explosivo de Raphael Vale na bateria que deixou todo mundo impressionado (lembra que a posição mais aberta da bateria no espaço era um diferencial?).

Além das quatro faixas do EP, o grupo apresentou músicas inéditas e prometeu novos lançamentos: “Em 2024 nós lançamos quatro músicas e em 2026 serão cinco novas”, comentou Petrachin.

Setlist enviado por Tuba:

  1. Azul
  2. Sobre o que costumávamos pensar?
  3. Semana passada
  4. Seu nome
  5. Em seu lugar
  6. Concha
  7. Abutre
  8. Diabo
  9. Sem Rosto I
  10. Sem Rosto II

Morro Fuji: a montanha que se manteve de pé diante das adversidades

Já passava da meia-noite quando o Morro Fuji subiu ao palco. Com muita empolgação, os versos da divertida “D’Artagnan” ecoaram na plateia, acompanhando a voz liderada pelo guitarrista Nico Faria.

A música deu início a uma apresentação um pouco diferente: o quinteto de São Bernardo do Campo virou quarteto naquela noite, devido à ausência da vocalista Angela Destro – que, inclusive, recebeu uma dedicatória em “Saudades de Você”.

Com isso, o repertório de nove faixas passou a incluir diversas músicas ainda não lançadas oficialmente, ao lado de conhecidas como “Luzes de Natal”, “Cores e Luzes” e a magnífica “Meus Pés e Seu Apartamento”, escolhida para encerrar a madrugada.

Mesmo diante do imprevisto, nada impediu que o Morro Fuji entregasse um grande show, evidenciando a virtuosidade técnica de Natan Bertolino (bateria), Leo Pacheco (guitarra), Pietro Demarchi (baixo) e, é claro, Nico Faria, que assumiu os vocais e contou com o apoio do público.

Tudo isso sustentado por um som difícil de não impressionar. Houve de tudo na apresentação: rock alternativo, pop, shoegaze, MPB e até nuances de jazz na levada de uma das músicas. A escolha de apresentar faixas inéditas despertou curiosidade e deixou no ar a sensação de que há algo maior se formando no horizonte da banda.

Setlist enviado por Pietro Demarchi:

  1. D’Artagnan
  2. Brisa
  3. Cores e Luzes
  4. Larara
  5. Mais uma vez
  6. Saudades de você
  7. Deus e eu
  8. Luzes de Natal
  9. Meus Pés e Seu Apartamento

O Porta Maldita também abriga “jams livres”, em que qualquer pessoa pode levar seu instrumento e tocar no espaço. De certa forma, o show continuou mesmo após as três apresentações principais.

Quando estava indo tempo, me deparei com a chegada de um grupo de dez ou mais pessoas com cabelos longos, bordados, jeans e instrumentos nas mãos. Provavelmente não era pelo Carnaval, mas a celebração, definitivamente, continuava naquele espaço.

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Arthur Coelho
Jornalista, baterista e apaixonado por música de todo tipo, principalmente se tiver gritaria. Também conhecido como Art ou Tuco.

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