Imagem dos integrantes do Nickelback

Sons da (minha) adolescência: Nickelback

Numa série em que eu revisito e conheço mais de artistas que marcaram a minha juventude, a trinca que impulsionou o Nickelback ao sucesso é colocado em perspectiva

Atualizado em: janeiro 26, 2026 às 4:58 pm

Por Guilherme Costa

Eu cresci consumindo a imensa grade de videoclipes que a MTV fornecia para a sua audiência, com a minha relação com os clipes sendo muito mais didática do que ouvir discos (o usual para a maioria dos roqueiros). Portanto, existem muitas bandas das quais eu gosto bastante (bastante, mesmo), mas que o meu conhecimento é resumido aos seus singles. Foi na pandemia, enquanto eu estava de home office, que eu decidi conhecer mais a fundo o trabalho de grupos que eu já tinha uma grande estima.

Nessa curiosidade, um bom tempo depois da pandemia (já são seis anos…), eu decidi mergulhar nas discografias das trilhas que comandaram a minha juventude. Como começar ou deixar de gostar de algo faz parte do processo da nossa maturidade — e com a música não é diferente —, eu me propus a revisitar obras contemporâneas à minha adolescência com o olhar dos meus 31 anos de idade.

Abrindo o primeiro capítulo da série Sons da (minha) Adolescência, a trinca “Silver Side Up”, “The Long Road” e “All the Right Reasons”, dos canadenses do Nickelback, é colocada em perspectiva!

A banda mais odiada do mundo

Em 2023 saiu o documentário “Hate to Love: Nickelback”, cuja premissa abordaria o fato do quarteto ser um dos “grupos mais odiados do planeta”. No geral, o documentário não é muito diferente do que qualquer outro que aborda a história de uma banda, mas temos uma perspectiva interessante a respeito do grupo, que, sim, entrou num limbo de não ser pesada o bastante para o público do metal (ou dos roqueiros mais ortodoxos) mas ser uma banda de rock que conseguiu furar a bolha do estilo, atingindo o público “não roqueiro”.

Formado em 1995 pelos irmãos Chad e Mike Kroeger, com Brandon Kroeger (primo da dupla de irmãos) e Ryan Peake completando a formação, que teve o posto de baterista instável até Ryan Vikedal assumir a função por sete anos. Antes do sucesso, a banda lançou dois discos completos: “Curb” (1996) e “The State” (1998) — este sendo lançado via Roadrunner, tradicional gravadora de Heavy Metal e seus derivados.

Focado, evidentemente, na potente voz do vocalista Chad Kroeger, os dois primeiros álbuns do Nickelback são mais crus, com guitarras pesadas e afiadas, como uma boa de Metal Alternativo que se preze. Vale lembrar que no final da década de 90 e início dos anos 2000, diversas bandas alternativas — que não eram necessariamente Metal — conseguiram destaque no mainstream; e eu me refiro ao Brasil, com Three Days Grace, Saliva, Creed, entre outros, ganhando destaque em rádios jovens e na MTV.

Entre baladas e músicas “pesadinhas”, o sucesso bateu a porta do Nickelback em 2001!

Silver Side Up (2001)

O disco de maior sucesso comercial do quarteto, até então, foi (e é) capitaneado pelo grande hit “How You Remind Me”, tendo o hype mantido com os outros hits: “Too Bad” e “Never Again” (que uma vez, enquanto eu aguardava o Almah subir ao palco do Manifesto, lá em 2017, ouvi — de uma dupla que estava ao meu lado — que ela era mais pesada do que o Slipknot); “Wake Up This Morning”, música responsável por abrir os shows da turnê do disco, também era conhecida do público geral.

É a partir da quinta faixa, “Just For”, que o podemos conhecer o Nickelback para além dos hits. E ela é um bom exemplo do peso dos canadenses e da atmosfera, de certa forma, sombria que permeia “Silver Side Up”; iniciando numa explosão rítmica, a faixa alterna entre passagens amenas e um refrão poderoso. Já “Hollywood” é introduzido com um riff que nenhum roqueiro colocaria defeito, que logo descamba numa dinâmica truncada e groovada, com baixo e bateria pulsando na intensidade da voz de Kroeger.

Se o álbum é recheado de guitarras pesadas, em “Money Bought” é a bateria de Ryan Vikedal que se destaca. Sendo mais Hard Rock (algo que o grupo aperfeiçoaria depois), ela está mais próxima do arrasa-quarteirão “Never Again”, bem como ocorre com “Where Do I Hide”. Ainda destaco “Hangnail”, que é uma faixa que sintetiza o “rock do tipo Nickelback” (e não estou sendo pejorativo), contendo uma carga melancólica e, ao mesmo tempo, pesada.

Entre a interpretação do Metal Alternativo e do Hard Rock, o terceiro disco do Nickelback mostrou um amadurecimento e salto profissional impressionante em relação ao seu antecessor. Muito mais seguros, o grupo não teve medo de caminhar entre estilos durante os quase quarenta minutos de álbum.

The Long Road (2003)

Após o enorme sucesso de “Silver Side Up”, da sua turnê de quinze meses e do single “Hero” — cantado por Chad Kroeger e Josey Scott (Saliva), para a trilha de sucesso do filme Homem-Aranha —, o Nickelback seguiu nos holofotes , mas numa proporção menor. O single de maior destaque foi “Someday”, outro hit da banda, tendo ainda “Figured You Out” e a fraca e genérica “Feelin’ Way Too Damn Good”, rendendo videoclipes e sendo bastante veiculados no Brasil.

“The Long Road” segue caminhando entre o Hard Rock, do qual é a tônica da boa faixa que abre o álbum “Flat On The Floor” (faixa que fala sobre a luta entre a queda e a autossuficiência), e o Metal Alternativo, com as ótimas “Do This Anymore” e “Believe It Or Not” sendo importantes para impulsionar o álbum.

Na sua reta final, embora eu goste muito de “Figured You Out”, o disco perde força e adere ao modo automático. O Hard Rock das últimas quatro faixas também funciona como uma transição para o que viria ser o mais destacado seu sucessor!

All The Right Reasons (2005)

“All The Right Reasons” foi lançado em 4 de outubro de 2005, e foi o primeiro com o baterista Daniel Adair (que segue até hoje no grupo). O álbum perdeu um pouco a veia alternativa que ainda era perceptível em seu antecessor, aderiu a um Hard Rock mais arrojado e comercial (aqui, sem juízo de valor) e acertou em cheio no que eles mais sabem fazer: baladas!

“Photograph”, faixa em que Chad revisita o seu passado, “Far Away” e “Rockstar” (com a sua letra homenageando o estilo de vida hedonista do rockstar), se tornaram tão grandes quanto “How You Remind Me”. Elas podem ser acusadas de serem formulaicas, mas parte da arte é sobre o sucesso. Indo um pouco na contramão, talvez por serem as minhas favoritas, “Savin Me” e “If Everyone Cared” — cuja temática foge do padrão do grupo, abordando colapso climático e social, com o videoclipe impulsionando tal mensagem — são duas baladas mais intensas e menos previsíveis do que os singles de maiores sucesso do álbum.

Talvez por ser a estreia de Adair, “Follow You Home” abre com um mini solo de bateria que logo dá lugar aos riffs pesados de Kroeger e Peake, um baixo simples mas o suficiente para não deixar vazios na música, e a sempre potente voz de Chad. Sem perder o fôlego, “Fight for All the Wrong Reasons”, mantém o clima lá em cima, com o seu refrão “longo” — algo que marca a identidade dos canadenses. “Animals”, que vem logo após “Photograph”, também reforça a veia Hard Rock do álbum, até pela sua letra (“Vou perguntar educadamente se o diabo precisa de uma carona/ Porque o anjo à minha direita não vai sair comigo esta noite/ Eu estava passando pela sua casa enquanto você estava saindo escondida”).

Podem falar que o Nickelback é água com açúcar e que só tem baladinhas pops. Mas não dá para negar o peso presente em sua discografia. Em “All The Right Reasons”, as guitarras estão mais altas e proporcionam momentos bangers, como “Side of a Bullet” e na já citada “Animals”. Embora pesado, o álbum também já é mais comercial que os antecessores, algo que ficaria mais evidente com os seus sucessores.

A partir de “Dark Horse” eu já parei de acompanhar os lançamentos da banda, mas destaco “Here and Now”, com seu Hard Rock moderno e respeitável (mesmo com os clichês do estilo).

Completamente ignorado por muitos, “guilty pleasure” de muitos outros, o Nickelback — assim como outras bandas que fizeram sucesso no início dos anos 2000 — guarda um mundo interessante para além das baladas que os alavancaram ao topo.

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Guilherme
A ideia do Um Outro Lado da Música surgiu após a minha conclusão dos cursos de locução e sonoplastia no Senac. A primeira etapa foi o podcast, disponível no Soundcloud, sendo seguido pela página no Instagram. O site era um movimento natural e, cá estou, escrevendo sobre artistas novos, antigos, pops, undergrounds!

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