Atualizado em: setembro 20, 2026 às 1:20 pm
Na última quinta (17) e sexta-feira (18), os japoneses do toe estiveram no Brasil pela e fizeram, nos palcos do Cine Joia, um dos melhores shows que recebemos neste ano – e um dos melhores que já vi na vida.
A empolgação foi tanta que resolvi revisitar toda a discografia do quarteto – Kashikura Takashi (bateria), Mino Takaaki (guitarra), Yamane Satoshi (baixo) e Yamazaki Hirokazu (guitarra) –, acompanhado ao vivo pelo tecladista Nakamura Keisaku. Comecei por aquele que talvez seja seu trabalho mais marcante: “the book about my idle plot on a vague anxiety“, de 2005.
Instrumental em sua íntegra (ok, vamos ignorar o prelúdio), o primeiro disco completo do toe é simplesmente um deleite, transformando a ausência de vozes e vocais em algo próprio: um novo dialeto, complexo e enriquecedor.
As guitarras, mesmo que em acordes mínimos, parecem dizer o indizível, criando sensações completamente específicas e levando você a lugares inusitados pela repetição – afinal, essa música também surge de uma experimentação que não é nada comum.
Esse minimalismo, porém, está longe de definir o que são as músicas do toe. O rico dialeto de seu universo musical conta com uma percussão que não fecha a matraca, que coloca notas em tudo quanto é lugar – e que parece usar todas as partes da bateria de uma vez só, inserindo solos no meio das próprias partes.
É impossível não ficar impressionado com o conjunto do toe, da mesma forma que é muito difícil não se deixar levar pelas músicas: basta fechar os olhos e seguir a imaginação.
A memorável “The Invention of Solitude” (ou, originalmente, 孤独の発明) me leva a um lugar bem ímpar: seus acordes iniciais são uma mistura de tensão com certo apelo noturno. A primeira vez que ouvi, pensei estar em uma pista do jogo Midnight Club, dirigindo na minha própria madrugada – algo que a música reforça em sua sequência de vai e vem entre conforto e tensão. Talvez essa seja a solitude à qual o título se refere.
Outro clássico vem na sequência, “tremolo + delay“, trabalhando uma introspectividade crescente que, estranhamente, desemboca em ritmos complexos e dançantes ao mesmo tempo – algo que apenas o toe poderia proporcionar.
Sensações opostas são sentidas em “The Dream Seen from the Other Side” (originalmente むこう岸が視る夢), em que as guitarras clamam por uma espécie de dissociação depressiva. São aqueles dias em que você apenas quer descansar e encontrar um espaço seu – algo que volto a sentir lá no final do disco, com “Metronome” (originalmente メトロノーム).
Não precisa de refrãos melosos para construir uma canção que remeta a amores e relacionamentos. O toe é prova disso com a confusão de “all I understand is that i don’t understand“. O título deixa claro aquilo que a música parece reforçar: o sentimento de não entender o que acabou de acontecer, uma tradução contínua de desorientação e dor que os japoneses expressam muito bem aqui – e que, no começo, até me remete ao The Strokes, meio aleatoriamente.
Apesar de não ser uma sequência direta, considero “past and language” uma continuação espiritual da faixa, ou apenas um relato intimamente ligado àquele outro momento do toe. É como um olhar nostálgico para o passado, de forma que chega até a confortar de alguma maneira, mas sem perder um eixo de melancolia.
Talvez outra ligação dessa narrativa esteja em “I do still wrong“: a repetição dos mesmos erros de antes. Errar uma vez é normal; duas vezes é mais humano ainda.
No final, talvez o enredo do toe seja sobre isso: explorar as emoções humanas e suas interpretações para cada pessoa. Instigar cada ouvinte a refletir e sentir sensações completamente específicas ao som de um clássico do math rock.





