“euyl” une jazz e hardcore no mais maluco, complexo e ousado disco dos últimos anos

Banda tailandesa/japonesa Faustus apresenta seu segundo disco da carreira com texturas inovadoras

Atualizado em: janeiro 27, 2026 às 7:13 am

Sei que esse título surpreende e pode até assustar ao imaginar a junção desses dois estilos que parecem tão incompatíveis entre si, como óleo e água no mundo da música. Mas saiba que é exatamente dessa forma que o Faustus te joga em seu novo disco de estúdio que é diferente de tudo que você vai ouvir na vida.

Quem ouve qualquer uma das músicas do grupo formado em Bangkok – que conta com membros da Tailândia e do Japão – logo percebe que está se deparando com algo diferente que poderia até mesmo ser chamado, sem qualquer exagero, de inovador.

A banda surpreende do começo ao fim: e não apenas pelas suas músicas (que falaremos daqui alguns parágrafos), mas também pela sua composição de membros. O Faustus é um power-trio de apenas guitarra, baixo e bateria, mas quem o ouvinte certamente vai chegar a questionar isso, pois parece que os três instrumentos, de alguma forma, conseguem se multiplicam em suas texturas, mesmo sem contar com qualquer efeito extra.

Ouvir o segundo e mais recente disco de estúdio deles – “euyl“, lançado em julho de 2025 – é como se deparar com uma muralha em plena destruição. Toda e qualquer estrutura é rompida aqui, pois o trio faz o que antes parecia impossível: unir elementos de math rock, jazz e hadcore em um mesmo espaço. Parece absurdo só de imaginar essa descrição. E é realmente é. Mas alguém resolveu ousar ao fazer isso de forma impecável.

Acima eu mencionei algumas descrições de gêneros e estilos que o grupo combina em suas músicas, mas tem uma outra característica que daria para ser citada.”euyl” é um disco que, de alguma forma, também pode ser encaixado no post-metal e post-rock: estilos marcados pela transgressão e que compartilham com o Faustus o movimento de romper com o tradicional do rock a partir de seus instrumentos base.

Por isso é que dá para falar que o compilado também faz parte do estilo, não apenas por ter músicas maiores, sem vocais ou divisões lineares de intro/verso/refrão etc, mas também por conseguir surpreender o ouvinte para além da primeira audição. Em uma era tomada por padrões bem definidos, em que aprendemos naturalmente a prever o que vem a seguir, o Faustus consegue dizer não e mostrar uma outra alternativa: improvisações e quebras de compasso que mostram bem a atitude hardcore e jazzística do trio. Ouça “Proust“, por exemplo.

 

 

E é interessante que eles consigam fazer isso unindo complexidade com peso e velocidade, coisa que eu nunca pensei em ouvir por aí. “euyl” potente e agressivo ao mesmo tempo em que desafia o gênero pesado ao incorporar o que o senso comum sempre colocou como incompatível ao metal. Nesse sentido, “ordinal” é um bom exemplo do que viso representar: uma música que passa por camadas de uma atmosfera referente ao metal alternativo (algo meio Sludge) e que se encontra também no experimentalismo e no improviso.

Com a bateria isso ocorre de maneira ainda mais especial, com grooves totalmente fora do eixo, que atiram influências para todos os lados. Na música “Petrichor“, há recursos emprestados que flertam com os ritmos de bossa nova e do sambinha (é sério!). Além de blast-beats em outros momentos.

O instrumental como um todo é rico, versátil, energético e bem definido: dissipa o protagonismo em diversas partes como uma unidade viva. Não há solos ou alguém que se sobressaia sobre os demais, pois o brilho das músicas está na definição da textura, no seu resultado final coroado pela maestria do entrosamento do grupo. E mais uma coisa: você baixista nunca mais vai reclamar de não ouvir seu instrumento!

 

Daria pra alongar por mais linhas e parágrafos sobre o Faustus e seu último disco, mas acho que já consegui puxar alguns pontos relevantes que eu tinha em mente. Então, aqui eu gostaria de encerrar com um comentário que também é um convite. Ouça “euyl” e tire suas conclusões: você já ouviu algo tão diferente nos últimos tempos quanto esse disco?

 

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Arthur Coelho
Jornalista, baterista e apaixonado por música de todo tipo, principalmente se tiver gritaria. Também conhecido como Art ou Tuco.

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