(Sub)gênero em foco: Como o Post-Metal nasceu para ir contra o próprio metal

Em junho, o "(Sub)gênero em foco" retorna para entender o que é esse tal Post-Metal que falam por aí

Atualizado em: maio 30, 2026 às 7:23 pm

Em fevereiro nós abrimos o quadro Subgênero em Foco com um material especial sobre o post-rock, que foi continuado em abril pelo Guilherme no Symphonic Metal e que, agora em junho, retorna ao confuso e enigmático “post-alguma coisa”.

Afinal, já que mergulhamos em um dos estilos e termos mais complexos de se falar, não faria nenhum sentido deixar de fora da conversa o seu primo caçula e trevoso chamado Post-Metal. E, assim, analisar não apenas o que esses familiares possuem em comum, mas principalmente se aprofundar na particularidade de cada um deles.

Dessa forma, não há outra maneira de abrir esse texto sobre Post-Metal sem antes responder à pergunta que paira na cabeça de qualquer leitor nerd de música:

Post-Rock e Post-Metal é tudo a mesma coisa?

A resposta é curta, mas não muito simples. Ambos não são sinônimos e, para sanar outras dúvidas: o Post-Metal não pode ser resumido de forma simples como uma versão mais pesada de post-rock, apesar da nomenclatura sugerir essa confusão. Outra questão importante é que esses dois estilos bebem de influências e origens totalmente diferentes. Enquanto o post-rock nasceu da mistura de influências de free jazz, shoegaze, folk, eletrônica etc. e se transformou em uma espécie de termo guarda-chuva para um rock que não quer soar como rock, o Post-Metal teve sua origem em um local mais específico e melhor definido.

O Post-Metal é, essencialmente, parte da cena de metal alternativo: uma criação que funde sludge, doom, progressivo e música de vanguarda em um espaço único. Afinações próprias, sintetizadores, instrumentos não convencionais e mesclas de partes etéreas com outras tribais fazem desse estilo um elo singular dentro do metal. Todo mundo que ouve Post-Metal logo identifica o estilo como parte do gênero mais pesado de todos – algo que não necessariamente acontece com o rock e o post-rock.

Mas, apesar de todas essas diferenças, os estilos de nomenclatura parecida ainda possuem certos elos de ligação, que estão principalmente presentes na atitude. O post-rock é tomado pela vontade de criar algo essencialmente diferente, focado em diferentes texturas repetidas e geralmente nutrido por longas faixas. O Post-Metal caminha por um espaço parecido e compartilha também da recusa de se enxergar como “rockstar” ou “metaleiro”, pois vai na contramão dos valores que essas palavras carregam.

E isso reflete diretamente no som, que é valorizado no conjunto acima do individual. Independentemente da banda citada, todos os seus arranjos vão soar como uma construção coletiva, que prioriza texturas no lugar de solos de bateria ou guitarra. O protagonismo é da música, não dos músicos. Até por isso, os vocais muitas vezes nem se encaixam aqui – outra similaridade com o post-rock – e, quando aparecem, são espécies de grunhidos ou guturais.

Por isso, mesmo com diferenças fundamentais, há certa razão em dizer que o post-rock e o Post-Metal são primos. Qualquer pessoa percebe que seus pais não são os mesmos, mas que, ainda assim, possuem algum parentesco.

Neurosis: o Black Sabbath do Metal Alternativo

Como citamos antes, o Post-Metal nasce diretamente da cena de metal alternativo, mais especificamente na década de 90, com as contribuições de uma banda que viria a ser emulada por muitas outras que consolidariam o estilo nos anos 2000. Estamos falando, é claro, do Neurosiso Black Sabbath do metal alternativo. A banda de Oakland era reconhecida em seus primeiros trabalhos por um som mais crust e hardcore, direto, sujo (sludge) e potente, mas isso mudou com o lançamento de seu terceiro álbum, “Souls at Zero”, de 1992.

O sludge da banda expandiu de forma única com a adição de samples, loopings retirados de filmes e teclados, resultando em um som atmosférico e denso que ninguém tinha feito antes. Aquele era – e ainda é – um disco tribal, agressivo e disruptivo, que consegue traduzir o peso em experiência emocional, indo além da afinação das guitarras ou dos berros.

Lendo reportagens e matérias sobre o tema, há praticamente um consenso: o Post-Metal veio, em parte, do Neurosis. Para se ter noção do nível de referência, não apenas “Souls at Zero” é apontado como grande influenciador do estilo, como também os lançamentos futuros do grupo californiano.

A Exclaim! diz que “Through Silver in Blood” (1996) é “uma transição para uma referência do pós-metal/experimental”, enquanto o jornalista musical Jon Wiederhorn, responsável pelo influente livro “Raising Hell: Backstage Tales from the Lives of Metal Legends”, define o trabalho como “responsável por plantar as sementes do Post-Metal”. Já o The Guardian, em uma chamada para entrevista com o quinteto, diz que seus álbuns destruíram barreiras de gênero e efetivamente serviram de modelo para todo o post-metal que viria depois.

Seja como for, fato é que os lançamentos do Neurosis dos anos 90 em diante passaram a ditar os rumos criativos e experimentais que viriam a formar aquilo que entendemos como Post-Metal nos anos 2000 e na atualidade.

 

Isis, Cult of Luna, Rosetta e outros: o Post-Metal e os discípulos de Neurosis nos anos 2000

Isis, Cult of Luna e Rosetta são algumas das bandas mais famosas do Post-Metal surgidas nos anos 2000, e todas creditam, de alguma forma, o Neurosis como grande influência para o som que queriam alcançar no início. Isso foi dito em entrevistas, é perceptível nos primeiros trabalhos desses grupos e foi até relembrado na recente entrada de Aaron Turner (um dos fundadores do Isis) no Neurosis.

O ponto de partida é claro, mas não suficiente para definir tudo. Tais grupos deram características próprias a seus respectivos sons a partir dos discos seguintes. O Rosetta começou como o mais ágil, pesado e agressivo deles e encontrou, ao decorrer do tempo, um lugar especial com um som mais espacial e galáctico.

Na Suécia, o Cult of Luna deu tons mais sombrios ao Post-Metal, sobretudo em sua obra-prima “Somewhere Along The Highway” (2006), que tem “Finland”, uma música que soa próxima da banda seguinte: o Isis. Fundado em Boston, nos Estados Unidos, o já extinto grupo é responsável por refinar o gênero com alguns dos timbres mais especiais que você vai ouvir por aí, além de criar uma marca registrada de passagens instrumentais delicadas que caminham repetidamente até um ápice crescente de riffs e vozes.

Sem nenhum exagero, “Panopticon” (2004) – um de seus principais trabalhos – é uma experiência musical que muda vidas e te leva para locais inexplicáveis. O Neurosis é um dos criadores do Post-Metal, e o Isis é, provavelmente, um dos grupos que melhor tratou e remodelou os frutos da outra banda. Basta ouvir o disco já mencionado ou então o antecessor “Oceanic” (2002) para ter uma definição coesa do que se entende por Post-Metal.

Outras bandas de pegada similar que surgiram nesse início dos anos 2000 são The Ocean, da Alemanha, Rosetta, If These Trees Could Talk (nos lançamentos iniciais), Year of No Light e o famoso trio de Chicago Russian Circles.

O Pelican é outro nome que não pode deixar de ser citado de forma alguma, e possivelmente é o nome mais diferente dos citados, puxando para um lado ainda mais instrumental e stoner, desde a primorosa estreia “Australasia” (2003), passando pelo auge “What We All Come to Need” (2009) e chegando aos dias atuais, com o EP “Ascending”, lançado neste ano.

Vale lembrar que o já citado Aaron Turner teve uma gravadora bastante influente nesse período, a Hydra Head Records, que ajudou a impulsionar e lançar diversos trabalhos ligados ao Post-Metal e ao metal alternativo em geral, assim como a Relapse Records, que existe até os dias atuais.

 

 

Não só de Neurosis vive o Metal estranho

Falamos bastante das contribuições do Neurosis para o estilo, mas seria injusto não citar outras bandas que contribuíram, ainda nos anos 90, para um lado mais arrastado, denso e ruidoso do Post-Metal, com influências mais presentes do doom metal e do drone.

Fazendo essa volta na linha do tempo do gênero, vamos a outubro de 1990 com o debut da banda Earth, de Washington, no compilado “A Bureaucratic Desire for Extra Capsular Extraction”. Aqui, você sente um instrumental extremamente lento e grave te atingir de forma repetida a cada momento, trazendo os riffs do Black Sabbath da forma mais extrema e doom possível.

Somando passagens longas com batidas industriais pontuais e grunhidos de black metal, a banda, sem querer, se transformou em uma referência que grupos passariam a seguir musicalmente em décadas posteriores – incluindo a fase mais atual do Post-Metal, que logo iremos abordar.

E já que citamos o industrial, não dá para deixar as contribuições do Godflesh de fora da lista de influências. O grupo é pioneiro nesse estilo desde a década de 80. Assim como também não dá para deixar de citar o projeto musical Jesu, liderado pelo vocalista Justin Broadrick. Seu disco autointitulado, de 2004, é um dos trabalhos mais atmosféricos e shoegaze da cena.

No Japão, o Boris também não poderia ficar de fora. A banda drone tem o disco “Pink”, de 2006, como um dos marcos desse Post-Metal mais arrastado, assim como a música “Flood” (2000), com uma hora e dez minutos de duração, como um dos momentos mais relevantes do estilo.

Post Metal na atualidade: Quando o Metal atmosférico encontra o Black Metal

Quando olhamos para o cenário atual do Post-Metal, com bandas que surgiram mais ou menos perto de 2010, observamos duas coisas bem interessantes. A primeira é que o estilo continuou se expandindo geograficamente, sem ficar preso à popularidade dos Estados Unidos. Mesmo nas décadas anteriores já havia bandas de destaque na Europa, e esse interesse pelo estilo continuou crescendo em outras regiões.

A segunda é que o Post-Metal caminhou para algo diferente no aspecto sonoro. Algumas das bandas que passaram a se destacar no estilo, como o Deafheaven – talvez o maior nome da atualidade –, passaram a combinar elementos de um Post-Metal mais refinado e atmosférico, na pegada Isis e Jesu, com uma agressividade advinda do black e do death metal – algo que também chamam de blackgaze (black metal com shoegaze).

No caso do Deafheaven, isso se traduz em passagens etéreas e mais delicadas combinadas com blast beats e vocais rasgados em eterno fade out. “Sunbather” (2013) e “New Bermuda” (2015) são praticamente impecáveis nessa combinação.

Numa atmosfera mais sombria, outra banda de destaque é o Agalloch (que surgiu antes de 2010), puxando para um lado folk metal fundido com o Post-Metal. Ela possui bastante semelhança com outro nome interessante do estilo na atualidade: Wolves in the Throne Room. Aliás, seu disco “Two Hunters” (2007) é quase uma odisseia pelos rituais da floresta.

A combinação ousada e sombria do “Post-Black Metal” é uma tendência que se mantém relevante dentro do nicho e que ganhou maior destaque na última década. Porém, vale lembrar que, com exceção do Isis, a maioria dos outros grupos citados – de qualquer era – ainda está na ativa lançando materiais bem interessantes dentro do gênero. O que significa que o estilo continua repleto de múltiplas facetas, derivadas do Neurosis, do Earth, do Boris, do Deafheaven ou de novas influências.

 

 

 

 

 

 

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Arthur Coelho
Jornalista, baterista e apaixonado por música de todo tipo, principalmente se tiver gritaria. Também conhecido como Art ou Tuco.

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