(Sub)gênero em foco: Symphonic Metal e as suas várias facetas

Em abril, o "(Sub)gênero em foco" retorna para entender como o Symphonic Metal se tornou um gênero próprio e como se dialoga com outros

Atualizado em: abril 2, 2026 às 10:18 am

Por Guilherme Costa

Certa vez, navegando pelos comentários de algum site de rock (muito possivelmente o Whiplash.net) e acompanhando a repercussão sobre uma matéria sobre o Symphonic Metal, me chamou a atenção quando uma pessoa comentou que o Rhapsody Of Fire era a sua banda de Metal sinfônico favorita. Embora eu não conhecesse muito sobre o então grupo de Alex Staropoli, Luca Turilli, Fabio Lione e companhia, eu sabia que os italianos estavam enquadrados na lista de bandas de Power Metal — estilo proeminente na Europa.

A ideia sobre o quadro “(Sub)gênero em foco” surgiu com o intuito de conhecer o cenário do qual um estilo passou a ser identificado como tal e como ele foi inserido no Brasil. O Symphonic Metal foi escolhido por esses motivos e por dar margem a sua fácil incorporação em outros gêneros; ou seja, temos o estilo conhecido pela roupagem que o Therion, Nightwish e Within Temptation deram, como também por outros subgêneros do Heavy Metal, sobretudo por grupos de Power e Black Metal.

Afinal, o que é Symphonic Metal?

Da mesma forma que o Heavy Metal e os seus subgêneros se tornaram um corpo independente do rock, podemos — razoavelmente — traçar esse paralelo entre o Rock e o Metal Sinfônico, uma vez que a incorporação de elementos da música erudita data de muito longe; mais precisamente do final da década de 60, quando o Deep Purple encerrou o seu terceiro e autointitulado disco com o épico de pouco mais de doze minutos “April”. Já na década de 70, a música erudita foi um dos elementos responsáveis pela grandiosidade do Rock Progressivo, que explodiu e dominou o mainstream com bandas como o Yes, Emerson, Lake and Palmer, Genesis e etc.

Na década de 80 foi a vez dos elementos sinfônicos serem incorporadas, mesmo que de forma comedida, nos estilos mais extremos do Heavy Metal, com as contribuições do Celtic Frost (“To Mega Therion” e “Into the Pandemonium”) e da banda de Thrash Metal, Believer. E, finalmente, na década de 90, foi a vez do “monstro” caminhar com as suas próprias pernas e ganhar um rosto pródprio.

A banda frequentemente apontada como a precursora do metal sinfônico é o Therion. Liderado pelo guitarrista e vocalista Christofer Johnsson, o grupo deixou o Death Metal de lado em seu quarto álbum de inéditas, “Lepaca Kliffoth” (cujo grande sucesso foi a faixa “The Beauty in Black”), introduzindo cantos operísticos e alguns elementos sinfônicos que pavimentaram as bases para o álbum seguinte “Thelin” — que tiveram sequência em “Vovin”; aqui, sim, podemos dizer que o metal sinfônico ganhou a identidade que foi consolidada posteriormente (embora, sem as partes sinfônicas, o grupo caminhava entre o Hard Rock e o Heavy Metal.

Em entrevista para o jornalista brasileiro, Gustavo Maiato, Johnsson comentou sobre o título do subgênero:

“Quando começamos não havia nenhuma outra banda se chamando assim. Havia várias bandas proto-sinfônicas contribuindo para o gênero e outras bandas como Rage e Waltari estavam experimentando com orquestra e outras coisas no mesmo período em um disco ou dois, mas até onde eu sei, ninguém usou o termo “metal sinfônico” antes de ‘Theli’. Lembro-me de dar entrevistas naquela época e me perguntarem como chamávamos nossa música. Lembro-me de não ter pensado muito sobre isso e ter respondido algo como ‘não tenho certeza… algum tipo de metal sinfônico’. Então, pelo menos fui eu que estabeleci esse termo e o Therion foi a primeira banda que fez tudo nesse estilo em tempo integral”

Dois anos após o lançamento de “Theli”, foi a vez dos finlandeses do Nightwish concluir as diretrizes do seria identificado como Symphonic Metal, com o aclamado “Oceanborn” — o seu segundo álbum de inéditas —, lançado no dia 7 de dezembro de 1998. Se o Therion, mesmo sinfônico, eram guiados pelas guitarras do seu líder, no Nightwish o protagonismo girou em torno dos teclados de Tuomas Holopainen; o canto lírico da então vocalista, Tarja Turunen, também foi um marco para o que viria a seguir com outras bandas (Within Temptation, Epica, Xandria e etc.).

Guitarras fortes, variando entre o Hard Rock e o Power Metal (este, no caso do Nightwish), coros operísticos e vocais líricos e, acima de tudo, teclados no centro do espetáculo. Foi assim que o Therion criou e o Nightwish consolidou o Symphonic Metal. E a partir da virada do século 20 para o 21 o gênero teve o seu grande boom, com o surgimento de bandas (geralmente da Europa) que seguiram levando a bandeira sinfônica para o globo terrestre.

Segunda onda?

Embora o tempo entre os lançamentos seminais do Therion e do Nightwish — podendo incluir a estreia do Within Temptation (“Enter”) aí — não tenha sido maior do que uma meia década, é notável como os anos 2000 foram bastante profícuos para o gênero. O Within Temptation, aliás, deu uma grande passo na sua discografia com o aclamado “Mother Earth”; já sem as bases Doom Metal da estreia, o seu segundo álbum carrega paisagens oníricas e fantasiosas.

Advinha qual era o centro do disco e da banda? O vocal lírio da vocalista Sharon den Adel e os teclados de Martijn Westerholt. Com a dupla de guitarra produzindo um som ora truncado ora Hard Rock (não resuma a definição ao som da década de 80), “Mother Earth” também marcou o fim dos “empreendimentos guturais” do guitarrista Robert Westerholt, deixando a dinâmica entre canto gutural e lírico para outras duas bandas (também dos Países Baixos) explorarem tal território. O homem em comum a essas duas bandas é o conhecidíssimo Mark Jansen!

O líder do Epica foi um dos fundadores e principais compositores do After Forever — grupo formado em Reuver, Limburgo —, que despertou a curiosidade do público logo no álbum de estreia “Prison Of Desire”, que continha uma veia gótica de grupos como o Tristania e The Sins of Thy Beloved, até pelo uso do “beauty and the beast”. Floor e Mark Jansen e o tecladista Lando van Gils utilizaram linhas de guitarras próximas ao Death Metal para deixar as suas sinfonias mais densas e melancólicas. Quando ele deixou o grupo para montar a sua atual banda, Jansen já sabia muito bem o que fazer.

Iniciando como um ambicioso projeto a primeira demo da sua nova banda, ainda sob o nome de Sahara Dust, contava com um coro (composto por dois homens e quatro mulheres) e uma orquestra de cordas (composta por três violinos , duas violas , dois violoncelos e um contrabaixo), rendendo a assinatura com a gravadora Transmission Records. O passo seguinte, já sob o nome de Epica, “The Phantom Agony” (disco de estreia da banda), foi primordial para o Symphonic Metal que surgiram nos ano seguintes, catapultando o grupo ao sucesso do qual eles nunca mais deixaram de sentir o gosto. Diferentemente do Nightwish e do Within Temptation, as guitarras do Epica sempre foram tão fortes quanto as linhas sinfônicas (extremamente elaboradas), com os belos vocais de Simone Simons dividindo o protagonismo com os vocais ásperos de Jansen.

O que veio a seguir foi basicamente grupos surgindo com o olhar direcionado às suas influências para Symphonic Metal definido na metade da década de 90. E então veio o Delain (criado por Martijn Westerholt, após a sua saída do Within Temptation), Leaves’ Eyes (criado após a saída de Liv Kristine do Theatre of Tragedy), Sirenia (criado após a saída de Morten Veland do Tristania) e Xandria — cujo canto da vocalista Lisa Middelhauve se distinguia por não ser o clássico operístico — sendo os nomes de destaques. Todos esses grupo seguiram, também, as temáticas épicas, ligadas à mitologia ou a natureza, religiosas e introspectivas que o Therion, Nightwish e Within Temptation abordaram em seus álbuns seminais.

Mas, como eu disse no início, o estilo pode e é maior do que isso por causa de outros dois gêneros

Power Metal

O gênero cujas diretrizes foram dadas pelo Helloween e Gamma Ray, ganhou uma nova ramificação na metade da década de 90 quando o Stratovarius (já na ativa desde o fim da década de 80) decidiu encorpar o seu som com influências neoclássicas (quem não se arrepia com a introdução do clássico “Black Diamond”?). Nessa esteira, vieram os italianos do Rhapsody of Fire que consolidou a vertente do “metal espadinha”, com o Blind Guardian e o Kamelot carregando a bandeira no século 21.

Se engane quem pensa que influência do Stratovarius não se resume aos grupos que seguiram no Power Metal/ Metal Melódico. Tuomas Holopainen, mentor do Nightwish, apontou o grupo conterrâneo como a sua grande influência para o “Oceanborn”.

Black Metal

O sisudo (e satânico) subgênero do Heavy Metal foi impactado pelas adições orquestrais consolidadas pelo disco de estreia do Emperor, “In the Nightside Eclipse”. A crueza e a intencional produção rudimentar de bandas como Mayhem, Darkthrone e Burzum, deram lugar para uma sonoridade sofisticada, sem perder a característica extrema do estilo — aliás, arrisco dizer que os elementos sinfônicos presentes no álbum estão mais elaborados do que nos álbuns do Nightwish e Therion.

A originalidade e ousadia dos noruegueses do Emperor abriu portas para que outros grupos pudessem mostrar como a música erudita podia ser adicionada a guitarras e baterias extremas, levando o estilo ao mainstream com o Dimmu Borgir e o Cradle of Filth.

Nova geração e “sinfonia” eletrônica

Como é habitual, o Symphonic Metal também passou por um tempo sem grandes novidades e por um processo de pasteurização, com a impressão de todos tentarem emular (ou imitar) o Nightwish ou o Epica. A saída, intencional ou não, para deixar a repetição de lado — ou evoluir os horizontes — foi substituir os elementos sinfônicos para os eletrônicos. Embora o Delain e o Sirenia já tinham tais elementos em suas músicas, foi o Within Temptation que deu as cartas ao lançar o seu sétimo álbum, “Resist”. Quase industrial, o álbum fez muito fã torcer o nariz para a nova roupagem do grupo neerlandês (eu não me incluo), mas a partir daí uma nova tendência foi criada: basta ouvir os recentes lançamentos dos já citados Sirenia e Delain (cuja nova vocalista, Diana Leah, veio da música eletrônica) e do Xandria.

Outro nome importante para consolidar a inclusão da música eletrônica no Heavy metal foi o Amaranthe. O grupo sueco “chocou” o planeta ao aliar vocais pops, música eletrônica e guitarras de Power Metal. Com o sucesso dos seus álbuns, é muito plausível apontar a sua influência na quebra do limite do Metal — que já dá os seus indícios de saturação.

Como é comum no ser humano, o sentimento nostálgico afeta os fãs de Symphonic Metal, ao passo em que outros são mais abertos a experimentações. Se a inclusão de camadas eletrônicas e a diminuição do canto lírico (como acontece com o Within Temptation e Epica) já são realidade há um bom tempo — e a nova geração já entendeu isso —, há grupos, como o Ad Infinitum, Eleine e Beyond The Black, que vem consegindo balancear os elementos clássicos e modernos em suas respectivas discografias.

 

Picture of Guilherme
Guilherme
A ideia do Um Outro Lado da Música surgiu após a minha conclusão dos cursos de locução e sonoplastia no Senac. A primeira etapa foi o podcast, disponível no Soundcloud, sendo seguido pela página no Instagram. O site era um movimento natural e, cá estou, escrevendo sobre artistas novos, antigos, pops, undergrounds!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *