Um Clássico na Quinta – John Fahey

Precursor daquilo que ele próprio chamou de “American Primitive Guitar”, o disco "The Dance of Death & Other Plantation Favorites" marca o retorno do Clássico na Quinta

Atualizado em: setembro 3, 2026 às 11:37 am

Por Victor José

John Fahey – The Dance of Death & Other Plantation Favorites (1965)

Precursor daquilo que ele próprio chamou de “American Primitive Guitar”, John Fahey (1939–2001) é um desses notáveis cuja importância vai muito além das suas composições ou do seu jeito de tocar — habilidades que, por si só, já lhe renderia um grande lugar na arte do século XX.

Ao longo das décadas de 1950 e 1960, foi uma espécie de arqueólogo cultural, viajando pelo sul estadunidense em busca de discos de 78 RPM esquecidos. Esse trabalho serviu para documentar canções de folk tradicional, bluegrass e hinos religiosos que, de outra forma, teriam sido completamente perdidos no tempo.

Sua obsessão por colecionar esses registros fonográficos raros também permitiu localizar fisicamente músicos que haviam desaparecido da vida pública há décadas. Desses casos, o mais emblemático foi a sua participação direta no redescobrimento do bluesman Bukka White, ajudando a reintroduzi-lo no cenário musical global. Além disso, dá para dizer que ele foi um pioneiro do que hoje entendemos como artista independente. No fim da década de 1950, muito antes de o conceito de “indie” ou “DIY” (Do It Yourself) se tornar culturalmente estruturado, Fahey já era um verdadeiro autônomo.

A criação da Takoma Records é um marco histórico por romper com o circuito das grandes corporações fonográficas da época. A gravadora foi fundada para inicialmente lançar o seu álbum de estreia, Blind Joe Death, de 1959. Para isso, Fahey trabalhou como frentista em um posto de gasolina e pegou 300 dólares emprestados com o seu pai. Ele mandou prensar inicialmente apenas 100 cópias do vinil de forma totalmente privada. A distribuição ficava a cargo dele próprio. Deixava cópias em caixas de correio de universidades, tentava vender diretamente para lojas locais e enviava os álbuns para radialistas e folcloristas na esperança de ser ouvido.

Falando especificamente sobre seu som, mesmo distante do grande público, o violonista é constantemente citado como grande referência por gente como David Gilmour, Pete Townshend, Leo Kottke, Thurston Moore e Lee Ranaldo. Até mesmo a revista Rolling Stone o elegeu como um dos melhores guitarristas de todos os tempos. Apesar de ser uma figura central e revolucionária para a música folk, ao mesmo tempo, ele serviu como um verdadeiro desconstrutor do gênero, implodindo
as barreiras do que esse tipo de música poderia ser.

Ele misturava coisas bem distintas e mesmo assim o resultado era uma coerência absurda. Imagine delta blues com Stravinsky, ou hinos cristãos com ragas indianos. O resultado é uma musicalidade que, embora soe muitas vezes de raiz, ainda é bastante vanguardista.

O que mais impressiona ao escutar qualquer som de Fahey é perceber como as tradições musicais dos Estados Unidos se aproximam de coisas como a música caipira do Brasil ou a guarânia paraguaia com tanta propriedade. Os sons mais ancestrais de qualquer país parecem vir de uma única fonte desconhecida. Seria isso produto do inconsciente coletivo? Quem sabe. Talvez, The Dance of Death & Other Plantation Favorites, terceiro álbum do músico, possa ser um exemplo concreto disso.

O LP é resultado de uma sessão realizada em 22 de agosto de 1964 no Adelphi Studios, em Silver Spring. Pouco se sabe sobre as circunstâncias dessa gravação. John Fahey tinha a fama de ser um cara bem recluso, discreto, quase hermético. Mas uma vez, relembrando a gravação que resultou no álbum, ele comentou: “Foi uma sessão interessante, foi a única vez que eu gravei sob efeito de maconha e uísque, então estava bem contente, você sabe.”

Fica evidente que ele procura combinar tudo aquilo que há de mais rústico e verdadeiro. E o mais incrível é que a música dele consegue ser isso tudo com apenas um violão. Tanto em “Wine and Roses” quanto em “Variations on the Coocoo” dá para reconhecer ecos de um country acelerado e um ar soturno do blues, como se fosse uma banda de cordas de um homem só. Na primeira, há até algo de música renascentista/fúnebre bem evidente. Realmente, a sensação é sempre de que parece algo que já se ouviu antes, mas atentamente, despindo os ouvidos daquilo que veio depois dele (e muito por causa dele), percebemos uma originalidade rara.

Por outro lado, “How Long”, ao mesmo tempo em que caminha para um blues, curiosamente se assemelha de forma surpreendente com o som das nossas violas caipiras do Brasil. E não tem como não mencionar a importância das afinações malucas que Fahey costumava usar. Isso fazia toda a diferença em seu som, e agora se percebe de onde Sonic Youth tirou essa ideia, mesmo que de maneira sutil. Aliás, a banda, fã de seu trabalho, se relacionou com ele na década de 1990, chegando a dividir o palco em algumas datas.

“Poor Boy” começa como se fosse uma canção folk como qualquer outra de Elizabeth Cotten ou dos pioneiros do gênero, mas logo Fahey introduz um slide e tudo muda para um som inclassificável, ao mesmo tempo em que se comporta como algo estritamente tradicional. “What the Sun Said” é um catado de um monte de invenções. São dez minutos de um baita músico brincando, rascunhando com o
instrumento, vendo o que sai.

“On the Banks of the Owchita” é a única faixa que contém mais de um instrumento. Nesta, Bill Barth faz um dueto de violão com Fahey. Outra pérola é “Dance of Death”, música que encerra o disco. Nela, o músico passeia por um bocado de variações e no fim parece que você já está escutando outra canção.

Vale destacar o som gasto presente em todo o álbum. É uma mixagem que dá um charme ainda mais pitoresco ao registro. No fim das contas, o disco vibra ligeiramente sombrio mesmo sem parecer triste e brilhante mesmo sem soar feliz. É uma combinação equilibrada e muito bonita.

The Dance of Death & Other Plantation Favorites acabou saindo em 1965, pela Takoma Records. Teve circulação bastante modesta e, hoje, suas primeiras edições são disputadas por colecionadores. Chegou a ser reeditado algumas vezes. Já em 1967, Fahey e a Takoma decidiram padronizar a identidade visual dos três primeiros álbuns, já que tinham capas super simples, apenas com escritos em preto num fundo branco. Esta edição ganhou uma arte do designer Tom Weller. O álbum foi remasterizado e relançado em CD na década de 1990.

Toda sua discografia é especial e merece atenção. Se você curte música instrumental e rusticidade, depois que você entende a vibe dele, fica difícil de se separar. O principal que se deve ter em mente é que, para a lógica de Fahey, um violão nunca é só um violão, e essa simplicidade é tudo. Numa primeira ouvida, pode até soar muitas vezes comum demais, tradicional demais, mas, se isso acontecer, dê mais uma chance e note as pistas que ele deixa em suas estruturas.

Existem outros álbuns de Fahey que são mais aclamados, como The Transfiguration of Blind Joe Death (1965) ou America (1971), assim como há outros muito mais experimentais e disruptivos, por exemplo The Voice of the Turtle (1968) ou Fare Forward Voyagers (Soldier’s Choice) (1973), mas The Dance of Death é uma boa porta de entrada para o mundo desse violonista genial, de personalidade bastante
indecifrável e musicalidade idem.

Ouça esse disco e tente classificá-lo. É impossível!

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Guilherme
A ideia do Um Outro Lado da Música surgiu após a minha conclusão dos cursos de locução e sonoplastia no Senac. A primeira etapa foi o podcast, disponível no Soundcloud, sendo seguido pela página no Instagram. O site era um movimento natural e, cá estou, escrevendo sobre artistas novos, antigos, pops, undergrounds!

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