Quando o Cult of Luna aboliu o sol: “Somewhere Along The Highway”

revisitamos "Somewhere Along the Highway" e a maneira como o disco transforma o frio em sensação, paisagem e estado de espírito

Atualizado em: setembro 7, 2026 às 10:17 am

Hoje está fazendo um baita frio onde eu moro – com a temperatura variando entre 10 e 12 graus -, em um dia propício para não fazer absolutamente nada. Afinal, estamos no inverno (ao menos no Brasil), e isso já traz toda uma atmosfera diferente.

E, se tem um trabalho do mundo da música que representa essa estação e que não saiu da minha cabeça nas últimas semanas, é “Somewhere Along the Highway”, o terceiro disco de estúdio do Cult of Luna, lançado em 2006.

O compilado, com 1h04 de duração e sete músicas, é uma representação musical do que é sentir frio – e estende isso para além dos arrepios e da vontade de se jogar debaixo das cobertas. Suas faixas transmitem e trabalham com a frieza, congelando versos em repetições que crescem junto à vontade de sobreviver ao gélido inverno de algum país escandinavo.

Não à toa, o grupo é originário da Suécia, apesar de ter em “Finland” uma das melhores faixas do compilado – e também de sua carreira. A construção da música é simplesmente genial, para não dizer imprevisível.

O que começa com berros quase tribais logo desacelera em uma repetição viciante de versos minimalistas, que crescem em um vaivém de introspecção e revolta contra a neve que cai do céu. Não acho nenhum exagero dizer que seus 10 minutos e 46 segundos estão entre os melhores momentos que a música pode proporcionar.

Na sequência, “Back to Chapel Town” mantém a estação gélida, mas acrescenta uma sensação constante de tensão. Sua construção é ainda mais lenta e chega a ser claustrofóbica em alguns momentos, criando uma pressão agressiva que parece permanente.

Nas letras, o grupo sueco narra um estado de isolamento – o mesmo que o frio parece nos sugerir a fazer em suas condições. É como se o Cult of Luna construísse um inverno permanente, em que a neve, o isolamento e a ausência de luz deixam de ser apenas imagens e passam a fazer parte da própria música.

Mesmo com algumas pausas entre as faixas, a odisseia de “Dim” retoma as mesmas sensações que a estação nos leva a experimentar. Curiosamente, isso acontece em um contraste entre um instrumental que parece tentar amenizar as vozes que desabafam em tom berrado. Essa faixa é pura dor. Na verdade, este disco é pura dor.

O fechamento, “Dark City Dead Man”, com seus 15 minutos de duração, é mais uma confirmação daquilo que o Cult of Luna anuncia nos primeiros segundos do disco: em determinados momentos, o inverno é constante. E esse inverno parece ter abolido o sol.

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Arthur Coelho
Jornalista, baterista e apaixonado por música de todo tipo, principalmente se tiver gritaria. Também conhecido como Art ou Tuco.

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