Atualizado em: junho 13, 2026 às 8:35 pm
Nossa introdução sobre o gênero Post-Metal começou a partir da sua diferenciação do post-rock – estilo que causa confusão por causa do nome similar e que também já foi tema aqui no site – e aqui vamos fazer algo parecido, mas de forma bem mais curta (eu prometo). O Post-Rock é um subgênero do rock cuja própria nomenclatura funciona como um grande guarda-chuva estilístico. Isso significa que existe uma quantidade enorme de bandas e artistas que podem ser considerados parte dele.
Com o Post-Metal, a situação é diferente. Trata-se de um subgênero dentro de outro subgênero. O Post-Metal é um nicho dentro do Metal Alternativo que, consequentemente, já é um subgênero do próprio metal. E não poderia ser diferente: trata-se de uma música que quase sempre existe à margem do mainstream. Essa condição coloca o Post-Metal como um espaço extremamente específico dentro da música e nos leva ao ponto mais importante desta introdução: não é muita gente que faz esse tipo de som, seja nos Estados Unidos, Europa, Ásia, África, Oceania ou nas Américas.
Ou, pelo menos, é bem mais difícil encontrar bandas que se encaixem no estilo para além dos nomes já conhecidos do nicho. No Brasil, a situação não é diferente. Mas isso não significa que não existam bandas de Post-Metal por aqui; considerando o tamanho do país, isso seria quase impossível. A questão é que, para encontrar alguns dos grupos citados neste texto, será necessário mergulhar em um pequeno campo de pesquisa musical. Mas pode ficar tranquilo: o esforço de procurá-los nas plataformas de streaming vale a pena. Algumas dessas bandas, inclusive, são referências do estilo dentro do continente.
Se liga em alguma delas:
Uma banda cinemática, espiritural e esmagadora
A banda Labirinto ganhou uma menção no texto sobre post-rock em razão de seu trabalho de estreia, “Anatema” (2010), que desde cedo já mostrava que o grupo paulista também tinha raízes na música pesada alternativa.
Com os discos “Gehenna” (2016) e o meu favorito, “Divino Afflante Spiritu” (2019), eles expandiram o caráter instrumental dos trabalhos anteriores através de texturas que constroem uma atmosfera permanentemente densa.
Nesse diálogo com elementos de doom e sludge, desenvolveram uma identidade que não soa como um Post-Metal espacial, mas cinematográfico – e, às vezes, até espiritual. Formado em 2005, o grupo se consolidou como um dos principais nomes do estilo no continente, marcando presença em festivais na Europa e na América do Norte.
Brutalidade sonora com a estranheza usual
Já em uma pegada mais agressiva, tribal e sludge, que dialoga diretamente com os trabalhos do Neurosis, existe a banda Noala, também de São Paulo, dona de trabalhos espetaculares.
“Humo”, de 2013, deveria ser referência global dentro do estilo por conseguir combinar riffs sujos (e irados), vocais arrebatadores e momentos experimentais que poderiam facilmente sentar em uma roda ao lado do industrial do Godflesh.
É difícil não bater cabeça com “Nostalgica”, “Humano que Vinga (…)”, “Stuck in a Gastric Tube” ou “Maya”, do disco autointitulado de 2018. Da mesma forma, também é tentador se perder nas estranhezas de “Canis Majoris” ou nas odisseias doom de “Snake Skin” e “Lava Agni”, que ultrapassam os dez minutos de duração.
Sons advindos de um futuro que está longe de chegar
Ainda explorando o lado mais arrastado, sujo e lento do Post-Metal, vale destacar “RLC”, da Saturndust (2017). A banda alcançou voos e galáxias ainda maiores em seu trabalho mais recente, “Geom”, responsável por um som futurista e único.
Mesmo sendo um lançamento de 2025, não é exagero dizer que esse disco parece vir de outra época – de um ano ainda não vivido, mas quase sentido através de seus timbres estranhos, sintetizadores e pads.
A sensação me lembra o impacto que tive ao ouvir “Souls at Zero”, do Neurosis, pela primeira vez. Não porque os discos sejam parecidos, mas porque parecem dialogar com diferentes momentos da história da humanidade, seja na Terra ou fora dela. E, por curiosidade, foi justamente a Saturndust quem abriu a única apresentação do Neurosis no Brasil, em 2017.
As repetições de versos, as texturas incomuns e o peso atmosférico encontram aqui uma sonoridade tecnológica que entra na curiosa contradição de soar alienígena e, ao mesmo tempo, flertar com o industrial e o tribal de um futuro imaginado. A faixa “Outsiders” talvez seja o melhor exemplo do que fracassadamente tento descrever em palavras.
Viagens através de sentimentos do Post-Rock ao Post-Metal
Se a Saturndust te leva para o futuro, o Throe é responsável por fazer você viajar pelas diferentes estações do ano e, ao mesmo tempo, experimentar os mais variados sentimentos.
O projeto praticamente se encontra em uma intersecção entre o post-rock e o post-metal – e inclusive foi citado em outro (Sub)gênero em foco, em texto dedicado ao primeiro estilo.
Trabalhos como “Throematism” (2021) e “odium”(2020) mostram uma construção mais pesada e densa, como nas faixas “Neon Star” – que abre o primeiro lançamento citado –, “odium” e “sangue nas mãos”, um dos poucos registros a contar com vocais.
Já em lançamentos mais recentes, como o excelente EP “O Enterro das Marés” (2023) e “Silver Blue” (2025), aparecem composições que combinam minimalismo atmosférico com a sensibilidade melancólica de grupos como Slowdive e Have a Nice Life.
Também surgem efeitos digitais que aparecem de forma inesperada e crescem progressivamente ao longo das músicas. Em alguns momentos, o projeto soa como um filho revoltado do Tortoise; em outros, como uma versão mais melancólica do Metal Alternativo.
Stoner, instrumental e imprevisível
Curiosamente, o responsável pelo projeto é Vinícius Castro, o Vina, conhecido também por escrever no Sounds Like Us e por assumir as cordas no Hueyband, grupo que também pode ser citado como parte desse cenário musical.
A banda, que conta ainda com Vellozo no baixo, Rato na bateria e Minoru e Dane El completando o trio de guitarras com Vina, é inteiramente instrumental e apresenta um som bastante influenciado pelo stoner, em uma pegada que lembra o Pelican em alguns momentos.
E essa comparação com o grupo de Chicago é bastante vaga, porque, assim como o Hueyband, eles também apresentam mudanças significativas de sonoridade a cada lançamento, chegando até mesmo a flertar com o punk em determinados trechos.
Fica aqui um destaque especial para “Ace”, de 2014, que chega como uma verdadeira porrada, e para o mais recente “Quinze”, de 2025, que soa divertido a cada nova audição.
Post-Metal punk e em português
Uma das bandas mais diferentes e interessantes do Post-Metal brasileiro é o Reiketsu, também de São Paulo. Curiosamente, não apenas é uma das poucas aqui a contar com vocais, como também a única desta lista que cantava em português.
Como se isso não bastasse, o quarteto ainda misturava elementos de sludge e crust ao seu Post-Metal de alma originalmente punk. O Reiketsu possuía um som original e praticamente único. Infelizmente, preciso me referir à banda no passado, já que suas atividades foram encerradas em junho de 2024.
O legado, porém, permanece – e talvez merecesse muito mais repercussão. Entre os seis lançamentos do grupo, “Cinza”, de 2013, foi o que mais me prendeu, alternando nuvens de poluição sonora da cor sugerida pelo título com passagens mais atmosféricas e instrumentais.
A mistura de estranha e ruidosa que também chegou no Brasil
No texto de introdução ao Post-Metal, pouco antes da despedida, foi possível citar que o gênero ajudou a gestar um novo estilo: o blackgaze, também conhecido como Black Metal atmosférico.
Pois bem, essa sonoridade não está restrita ao Deafheaven ou aos Estados Unidos. Ela já alcançou diferentes localidades, seja como reflexo direto da cena de Black Metal ou da fusão de seus elementos com outros estilos.
O projeto sonhos tomam conta, de Lua Viana, representa um dos exemplos mais criativos dessa vertente no Brasil, principalmente quando ouvimos seu primeiro EP, “pesadelos” (2020), e “Insolação”, lançado dois anos depois.
Suas músicas pendem mais para o lado shoegaze da equação, com reverberações extremas em uma abordagem que parece mirar no Deafheaven, mas acaba acertando em algo muito próprio.
Meio fora do objetivo deste texto, também vale mencionar que Lua Viana mantém atualmente outro projeto chamado Antropoceno, que combina elementos de metal com música tradicional brasileira. Não é Post-Metal, mas é tão diferente e disruptivo quanto.
Se o sonhos tomam conta trabalha o blackgaze com ênfase no (shoe)gaze, os cariocas do Solifvgae fazem o caminho oposto, trazendo o Black Metal para o centro da experiência.
“Avenoir”, que completou dez anos em 2026, é o único trabalho disponível da banda – ao menos nas plataformas de streaming – e também um dos discos que melhor traduz esse estilo recente e difícil de categorizar.
Faixas como “Fullheart” e “Pathway” passam a sensação de caminhar por um ambiente permanentemente escuro e ameaçador, enquanto “Submerge/Emerge” e “Ocean, As Elusive Memories” constroem um desconforto atmosférico difícil de ignorar.
O Brasil também faz metal estranho!
É interessante perceber como um estilo tão nichado consegue ecoar de formas tão distintas no Brasil. Embora o número de bandas seja reduzido, a criatividade parece compensar qualquer limitação quantitativa.
Cada grupo construiu sua própria identidade a partir de influências diferentes, pegando um pouco de doom aqui, sludge ali, industrial de um lado, shoegaze e Black Metal do outro. O resultado é uma cena pequena, mas artisticamente rica, que continua mostrando que o Post-Metal está longe de ter uma data de validade.






