Atualizado em: junho 22, 2026 às 3:27 pm
Por Guilherme Costa
Embora tenha sempre alguém (bocó) para criticar a fusão entre o rock e a música brasileira, é impossível não ouvir certos grupos e identificar um certo DNA (do Los Hermanos ao Carne Doce; do Mombojó ao Varanda…) — uma certa sutileza, mesmo que haja momentos de histeria, e letras muito poéticas. Para quem aprecia a roupagem (às vezes meio blasé, eu confesso), há uma nova geração que vem ganhando espaço na mídia independente com trabalhos sólidos e empolgantes.
Há grupos, no entanto, que utilizam o rock como pano de fundo em sua construção, resultando numa sonoridade mais fluída, que não se prende a única fórmula (e não digo isso de forma pejorativa). Nessa esteira está o Infinito Latente, grupo paulista formado por Maira Bastos (voz), João Dussam (voz e violão), Igor Sganzerla (teclado) e Pedro Sardenha (baixo), que lançou o seu disco de estreia — “Sem Início Nem Fim” — no dia 22 de janeiro, via Retalho.
“O disco é sobre se jogar. Fala sobre o movimento do tempo e chegar a um lugar onde podemos experimentar o sentimento de liberdade. Por isso, há músicas que evocam sensações de mudança, desejo e paixão”. Comentou Dussam, em matéria veiculada no portal Noize.
Passando pelo Lo-Fi, Indie Pop, MPB, Jazz e muitas bases eletrônicas, a sonoridade de “Sem Início Sem Fim” é completada por uma poética que te leva para bem longe do ritmo frenético das grandes metrópoles. É como se eles (também) te convidassem para desacelerar, como a dupla canta nos primeiros versos de “Amanhã Azuis”:
“Feito manhã florescendo/ Em seus olhos, rio e mar/ Brisa brinca no vento/ Cor de maçã, o sabor da tua face/ Cor de sal, céu e chão, movimento”
Se a faixa de abertura te convida a deixar a ânsia de estar cem por cento ligado, “Fora do Ar” — a faixa seguinte — vem para te mostrar as possibilidades de olhar para si próprio e descobrir as suas várias versões (“Fora do ar/ Força do hábito, faz imaginar/ Mil outras faces para eu poder descobrir/ Que habitam dentro aqui”). A música conta com belos arranjos de cordas, que me lembraram algumas passagens do disco de estreia da Nina Maia, dando tons mais refinados a faixa — cheia camadas eletrônicas (que marcam a identidade do disco).
Numa direção circular, onde a roupagem Lo-Fi é o grande fio condutor do álbum, o Infinito Latente teve êxito em encaixar as suas diversas influências nos pouco mais de trinta e oito minutos!
Os elementos eletrônicos, geralmente funcionando como base, é o que dá o tom para a faixa “Cores”, que, segundo o grupo (na citada matéria na Noize), foi inspirada num cachorro (cachorrinho, né!) que ficava no Bangue Estúdio (um estúdio em Taubaté, onde o grupo esteve numa outra ocasião); entre o violão e o “sintetizado”, a música tem uma levada folk (bem bucólica), onde a dinâmica entre as vozes de Maira e João também contribui para ela ser uma das mais distintas do disco. “Gota por Gota”, por sua vez, é notável por cair no ritmo do bolero — sendo enriquecida por instrumentos de metais.
Como o grupo bem disse, “Sem Início Sem Fim” é pautado pelo sentimento de liberdade em aceitar mudanças e os seus efeitos — do qual costumeiramente lidamos de forma negativa —, em se permitir pausar para respirar, refletir e curtir o processo (com o perdão do uso do termo já banalizado), sem pensar no início ou no fim. Talvez seja por isso que o álbum é tão plural, embora sempre sereno.





