Atualizado em: maio 4, 2026 às 7:07 am
Por Guilherme Costa
O Myrath é daqueles tipos de bandas que chamam a atenção por sua origem — afinal, não é muito comum vermos bandas africanas despontando no mundo do Heavy Metal — e pelas orquestrações árabes aliadas à técnica refinada do Prog Metal. Ao longo dos seus sete discos de estúdio, os tunisianos vem aumentando a sua base de fãs, criando a difícil missão de sempre agradar o antigo e novo público.
Eu conheci a banda em 2017, quando eles estavam promovendo o álbum “Legacy”, sendo também impactados pela mistura inusitada entre música árabe e metal. O seu sucessor, “Shehili”, foi um grande passo na busca pelo sucesso da banda, aperfeiçoando a sua identidade e angariando mais fãs — o Myrath, a propósito, fez um show impecável num Carioca Club lotado em 2023; por lá, foi perceptível a presença de fãs de “primeira viagem” da banda.
Após mais de dez anos usando a mesma fórmula, o Myrath decidiu deixar a parte orquestral de lado e focar mais em guitarras no álbum “Karma” (2024), um disco que não me agradou muito num primeiro momento mas que envelheceu como vinho. O álbum também mostrou faixas mais diretas e com grande potencial radiofônico (expressão que não faz mais sentido, mas que ainda consegue sintetizar as intenções de atingir o mainstream).
Dois anos depois, o que poderia ser a confirmação de uma fase mais “básica” do Myrath se tornou uma espécie de retorno às raízes com o disco “Wilderness of Mirrors” — o sétimo disco da banda, lançado no dia 27 de março, via earMUSIC!
Seguindo com a formação de “Karma”, a saber Zaher Zorgati (vocal), Malek Ben Arbia (guitarra), Anis Jouini (baixo), Kevin Codfert (teclado e backing vocals) e Morgan Berthet (bateria), o novo disco do quinteto pode até não trazer nenhuma novidade para quem já os acompanham há um bom tempo, mas não deixa de ser uma coleção (unidade) de músicas bem arranjadas. Por sinal, Zaher Zorgati mostra mais uma vez por quê deveria estar nas listas de grandes vocalistas de Metal da atualidade!

“Wilderness of Mirrors” é iniciada com a extensa “The Funeral”, cuja introdução poderia ser um interlude (embora o efeito prático é o mesmo), mostrando que os elementos sinfônicos árabes não estariam em segundo plano. Para além do que todos querem ouvir do Myrath, a faixa também conta com uma guitarra poderosa e uma base sólida e dinâmica. “Until The End” vem em sequência, sendo reforçada com o belo vocal de Elize Ryd (Amaranthe); introduzida pela percussão comum nas músicas da banda, ela é uma peça poderosa protagonizada pelo dueto de Ryd e Zorgati, e reforçadas pelas pesadas linhas de guitarra e bateria.
Se as duas primeiras faixas chacoalham o ouvinte, “Breathing Near the Roar” diminuiu o ritmo e aposta numa atmosfera mais densa (bem como o seu videoclipe). Introduzida com versos cantados no idioma wolof (falados em países como o Senegal, Gâmbia e Mauritânia), a faixa é recheada de bases eletrônicas e tem um groove que não deixa que ela saia do lugar de onde ela começou; talvez por abordar a relação entre sobrevivência e esperança de um cenário devastado:
“Venha e pegue minha mão esta noite/ Guie-me através da chuva/ Salve-me da luta sem fim/ Guia-me através da do/ Stidapeley, Stidapeley/ Estou afundando sozinho na tempestade/ Stidapeley, Stidapeley/ E estou respirando perto do rugido”
“Les Enfants Du Soleil” é outra que se distingue do pesado início do álbum, por causa do coral que a introduz — embora a faixa logo se direciona para o Metal que a banda costuma fazer, com destaque para a notória linha de baixo de Jouini e a interpretação de Zorgati.
Se acima eu disse que o Myrath não trouxe nada de novo em “Wilderness of Mirrors”, talvez o grande êxito do disco seja unir a direção mais reta do seu antecessor com as linhas sinfônicas árabes. Diferentemente dos outros álbuns, onde era permitido um exibicionismo aqui e ali, as dez faixas do registro vão direto ao ponto (à exceção, talvez, de “Breathing Near the Roar”), tendo uma base sólida e cheia de grooves e grandes riffs de guitarras poderosos o suficientes para darem grandeza a elas (com “Still the Dawn Will Come” e “The Clown”, que contam com grande solos de Malek, sendo grandes exemplos disso).
Falar do Myrath hoje em dia já não é falar de uma banda que desperta curiosidade, é falar de um grupo com uma carreira sólida que mostra o seu crescimento a cada lançamento. “Wilderness of Mirrors” é outro grande passo acertado do quinteto tunisiano!





