Atualizado em: julho 10, 2026 às 7:08 am
Às vezes me pego imaginando o quão doido deve ser acompanhar uma banda pequena crescer e estourar fora da bolha (ou até mesmo dentro dela). Tipo ter visto e ouvido o Nirvana antes de “Nevermind” (1991) ou o Title Fight – para citar grupos e momentos diferentes – antes do sucesso de “Shed” (2011). Deve ser uma sensação muito doida e surpreendente ao mesmo tempo.
Quando terminei de ouvir “Spiral” (março deste ano), o álbum de estreia independente da Tried, foi exatamente essa sensação que tive. Até o momento, é uma banda com cerca de 400 ouvintes mensais, mas – ao menos na minha cabeça – logo estará fazendo grandes shows dentro do nicho.
O primeiro trabalho praticamente não comete pecados. Não há uma única faixa que passe batida ou deixe de brilhar. Da bateria aos vocais, tudo soa divertido, rápido e, de certa forma, carismático – palavra que pego emprestada da faixa de abertura, uma das minhas favoritas.
“Spiral” é essencialmente hardcore e alternativo no sentido mais moderno da palavra – seja isso positivo ou não. “Learn” é prova disso e provavelmente já estaria sendo tocada em grandes festivais se tivesse algum tipo de referencial mais consolidado. Há ecos de Turnstile em alguns momentos, embora a Tried tenha personalidade suficiente para soar como diferente. (Admito que mesmo eu não sendo fã de Turnstile, estou bem viciado no Tried e nesta faixa.)
Já que estamos falando das tendências mais recentes do hardcore, preciso destacar “Four Leaf” e “Out of Reach” (preste atenção no baixo dela). As duas entregam um tipo de som refrescante que eu queria ouvir há muito tempo dentro do estilo – e nem sabia disso. Tudo soa imprevisível, divertido e melódico ao mesmo tempo, mas sem exageros que tornam as canções enjoativas.
Outras faixas do disco também me remeteram a bandas desse hardcore alternativo mais melódico que dialogam muito bem com a proposta da Tried. Apesar da introdução meio “Everlong”, “Synchronize” me soou como um encontro entre a fase mais introspectiva do Title Fight em “Hyperview” e os momentos mais energéticos de “The Last Thing You Forget”.
Já “Great American Novel” me levou para um lugar diferente e mais pesado. Como um espaço que reúne influências do Superheaven – principalmente em seus primeiros trabalhos – com uma abordagem mais caótica e descontrolada.
No fim, esta resenha acabou se tornando também um apanhado de ótimas referências e de bandas que, desde a década passada, insistem em reinventar o hardcore. A Tried parece ter tudo para seguir por um caminho parecido, mas sem abrir mão da própria identidade. Se “Spiral“ serve de indicativo, a banda de Detroit (EUA) já demonstrara que sabe exatamente como fazer algo autêntico, diferente e viciante – pois acabo retornando neste álbum semana atrás de semana.





