Atualizado em: agosto 6, 2026 às 3:14 pm
Por Guilherme Costa
A década de 90 foi bastante profícua para a música underground e mainstream (sim, as Boybands e afins tem o seu valor, afinal, influenciaram gerações seguintes). Aliás, a década foi perfeita — em certa medida — para o underground, já que diversas bandas alternativas conseguiram experimentar o sucesso e mostrar a sua arte para os vários cantos do mundo. O alternativo virou moda; o grunge de “Nevermind” ao Smashing Pumpkins, passando grupos “menores” mas tão relevantes quanto, como o Breeders, Bikini Kill e Garbage estavam na grande mídia, numa estética dos anos 90 foi recheada pelo espírito DIY, muito barulho e letras de cunho político e pessoal.
Se o início da década foi marcado pela revolta e melancolia, a segunda metade foi recheada de paisagens ensolaradas e divertidas. O grunge e o Alt Rock deram espaço ao Pop Punk e ao Ska Punk, que também definiu o rosto da sua época de maior destaque midiático e comercial. A sonoridade que consistia numa dinâmica entre Punk/ Hardcore, com a o ritmo sincopado da Ska Music e a adição de instrumentos de sopro (principalmente o trompete, trombone e saxofone) foi recebido com muito entusiasmo pelo underground e, posteriormente, pelo mainstream. Entre letras escapistas e políticas, o gênero viveu o auge na década de 90, capitaneado por The Mighty Mighty Bosstones, No Doubt, Less Than Jake, Rancid, Sublime, Goldfinger e Reel Big Fish.
Mas quando se aborda um estilo musical que é resultado de uma fusão de outros dois gêneros, é necessário começar a história através de dos dois pontos de vista: no caso do Ska Punk, é importante contar a previamente a história da Ska Music e do Punk Rock para entendermos em que ponto os estilos — até então antagônicos — conseguiu se tornar um só.
Ska Music
Surgido na Jamaica no fim da década de 50, a partir da independência do país, quando a música dos EUA — como o Blues, Jazz e R&B — passou a ser tocada com frequência nas rádios jamaicanas, o Ska é fruto da mistura entre as influências norte-americana com os ritmos da música jamaicana e caribenha, como o mento e o calipso (originalmente surgido em Trinidad & Tobago), respectivamente.
O resultado foi um gênero bastante dançante, baseado em bateria com contratempo, linha de baixo marcante e geralmente contínua (walking bass) e com grande presença de metais (sobretudo trompetes, trombones e saxofones) e teclados. Evidentemente que foi na Jamaica onde surgiu os principais artistas do gênero — precursor do Reggae e do Rocksteady —, com o The Skatalites sendo o grande destaque.
Punk Rock
A história do Punk Rock é muito mais conhecida do público em geral e, por aqui no Brasil, um dos motivos é o fato do estilo ter se adaptado muito bem à nossa língua. Os três acordes, o lema “do it yourself”, as mensagens políticas já eram marca registrada do Proto Punk (e, aqui, eu cito exemplos como o MC5; além de grupos como o New York Dolls e o Stooges) e do Rock de Garagem, que foram impulsionadas a partir do Ramones e da onda punk britânica (Sex Pistols, Clash, Damned…) na década de 70 — para citar os exemplos mais instantâneos, quando pensamos no gênero.
E foi na Inglaterra que o Ska e o Punk tiveram o seu primeiro encontro!
2 Tone
Com um grande número de imigrantes jamaicanos na Inglaterra, o estilo ganhou um ritmo ainda mais rápido e se adaptou às mazelas inglesas vividas no período Margaret Thatcher. Em outubro de 79 saiu o autointitulado disco de estreia do The Specials, via 2 Tone Records (gravadora fundado pelo membro do Specials, Jerry Dammers), que “inaugurou” o estilo denominado como: 2 Tone — também conhecido como a segunda onda do Ska; no mesmo dia, 19 de outubro, o Madness também lançava o seu disco de estreia (“One Step Beyond”), via Stiff Records e Sire Records, marcando o início da Ska Music no mainstream britânico. Nessa esteira, vieram bandas, como o The Selecter, The Beat (além do Police e do UB40, bandas de Post-Punk e New Wave que também aderiram a mistura de estilos).
1979 foi um definitivo para a gênese do Ska Punk, já que, além das estreias do Specials e Madness, o Clash também lançou o seu disco seminal. “London Calling” foi lançado no dia 14 de dezembro, e o álbum duplo do quarteto formado por Joe Strummer, Mick Jones, Paul Simonon e Topper Headon introduziu linhas de Ska (entre outros estilos) em seu Punk, não deixando a raiva e senso de urgência que a classe operária e o jovens ingleses sentiam naquele momento (o Specials também se notou pelas letras de cunho político) de lado. O protesto deixou o barulho e ganhou ritmo.
(Finalmente) o Ska Punk — a 3ª onda
Embora o Ska e Punk Rock tenham se encontrado na Inglaterra, foi no Estados Unidos que o Ska Punk ganhou forma ainda na década de 80, sendo guiado pelo Fishbone, Operation Ivy (embrião do Rancid) e o The Toasters. Na virada para a década seguinte, o boom veio com um grande número de grupos ganhando destaque local, sendo capitaneados pelos nomes citados acima.
Em 1989, trinta anos depois do Specials, Madness e Clash plantarem as sementes do que iria ocorrer na década de 90, o The Mighty Mighty Bosstones lançou o seu disco de estreia “Devil’s Night Out”. De repente, um som próximo de um metal pesado estava sendo reforçado por linhas de trompetes e trombones eufóricos.
Em 92 foi a vez do Sublime e do No Doubt lançarem os seus álbuns de estreia (“40oz. to Freedom” e “No Doubt”, respectivamente). Em 95, foi a vez do Less Than Jake e do Red Big Fish estrearem o seu álbum completo, fincando de vez o estilo no planeta; ainda em 95, o Rancid lançou o seu terceiro álbum (“…And Out Come the Wolves”) que tem um dos grandes hinos do gênero: “Time Bomb”.
Impulsionados pela MTV, o Ska Punk se tornou uma febre!
Como é habitual após um boom, alguns grupos foram acusados de se vender e o Ska Punk também tiveram os seus detratores — seja pelo estilo mais despojado das músicas ou por tornar o som mais pop. Esta última situação ocorreu com o No Doubt, quando o grupo lançou o (muito) bem sucedido “Tragic Kingdom”, que só vai ter algo próximo de Ska na metade do álbum, embora não seja tão pop como chegou a ser acusado; vendendo cerca de quinze milhões de cópias e tendo o grande hit “Don’t Speak”, além de “I Just Girl”. Talvez isso se deu apenas por ser o primeiro registro sem a presença do seu principal compositor, Eric Stefani, como declarou Tom Dumont, à época
“Este álbum foi nossa primeira tentativa. Foi a primeira vez que Gwen escreveu todas as letras sozinha, então, para mim, foi o oposto de se vender — fizemos algo ainda mais pessoal. No passado, Eric escrevia músicas sobre sua vida e Gwen as cantava. Agora, temos Gwen cantando e escrevendo sobre suas próprias experiências. Isso torna tudo mais natural. Ela é cantora, então deve cantar sobre si mesma ou cantar o que quiser. Acho que essa é a principal razão pela qual nosso estilo musical mudou”.
Embora os principais hit estejam bem distantes do que a banda havia feito nos dois primeiros álbuns, “Tragic Kingdom” tem, sim, faixas que fazem jus ao que era definido como Ska Punk. O Less Than Jake (assim como o Save Ferris), por sua vez, se “bandeou” para o Pop Punk nos anos 2000, a partir do álbum “Anthem”, lançado em maio de 2003, e começou a fundir os dois estilos nos trabalhos seguintes
Enquanto alguns grupos decretaram o seu fim na virada do século ou entraram num grande hiato, outras bandas seguiram no underground (ou fora do grande mainstream), gravando discos e realizando turnê mundo afora, influenciado uma nova geração de fãs que, por sua vez, cresceram e formaram uma banda — como o The Interrupters, cuja vocalista Aimee Allen declarou, certa vez, sobre o subgênero: “O ska nunca desapareceu, ele apenas entra e sai do mainstream”.
Em 2019 foi lançado o documentário PICK IT UP – Ska In the’ 90S. Narrado por Tim Armstrong (Rancid e Operation Ivy), o doc mostra como os grupos pioneiros cresceram em origens DIY até a grande ascensão ao mainstream. Como todo gênero musical, o início, a saturação e o renascimento também afetaram o Ska Punk (há casos, também de grupos que estão mais próximos do Clash).
Mas seja o Ska Punk do Clash ou Specials, ou a loucura da década de 90, o estilo se mantém firme com antigos e novos nomes!





