(Sub)gênero em foco: quando o ritmo do ska foi impactado por guitarras de hardcore

O disco de estreia do Mighty Mighty Bosstones, "Devil's Night Out", pavimentou o que seria um padrão nos anos seguintes

Atualizado em: agosto 13, 2026 às 8:06 am

Por Guilherme Costa

A década de 80 teve duas partes importantes para o Ska. Primeiro, o surgimento da segunda onda (a 2 Tone) na Inglaterra, comandadas por grupos como o Specials e o Madness, além dos notáveis trabalhos do Clash ao juntar Punk e Ska (entre outros ritmos). Na parte final da década, surgiram novos nomes que seguiram incorporando os ritmos jamaicanos na sonoridade da sua banda. Mas dessa vez, os Estados Unidos era o foco!

Embora já existiam há um bom tempo, foi na reta final dos anos 80 que o Fishbone e o The Toasters lançaram os seus discos de estreia: “In Your Face” e “Skaboom!”, respectivamente. Enquanto a primeira banda, formada na Califórnia, não era exclusivamente de Ska, já que havia elementos de Funk e Soul Music em seu som, a segunda era completamente inspirada nos grupos da geração 2 Tone.

As diferenças, no entanto, não são colocadas na mesa quando a terceira geração do Ska, ou o Ska Punk, é abordada. Gwen Stefani (No Doubt), por exemplo, disse no documentário do Fishbone (“Everyday Sunshine: The Story of Fishbone”) que matava às aulas da sua escola para ir aos shows do grupo:

“O vocalista Angelo Moore foi meu primeiro ícone de estilo na vida. Eu costumava cabular as aulas no ensino médio em Anaheim só para pegar a estrada e tentar ir aos shows do Fishbone.”

Fishbone e Toasters eram grupos que tinham guitarras fortes mas que não abordavam necessariamente a linguagem punk. Foi o Operation Ivy e o Mighty Mighty Bosstones que colidiram os dois estilos no fim da década de 80, antecipando a febre que ocorreria nos anos seguintes. Este último, inclusive, é, para mim, o grupo que inicia o que podemos considerar como a banda que imprimiu o que é conhecido como Ska Punk logo em seu disco de estreia.

Eu conheci o grupo por causa do cover que eles fizeram de “Detroit Rock City”, do Kiss, cujo videoclipe passava com frequência na MTV. O grande êxito do grupo original de Boston, Massachusetts, foi em 1997 com o disco “Let’s Face It”, que rendeu o seu grande hit: “The Impression That I Get”. Mas tudo isso foi precedido por álbuns de energia vigorosa e muito hardcore e ska music.

Devil’s Night Out

Formado por Dicky Barrett (vocal), Nate Albert (guitarra), Joe Gittleman (baixo), Josh Dalsimer (bateria), Tim “Johnny Vegas” Burton (saxofone) e Ben Carr (dançarino e “Bosstone” oficial), o sexteto demorou quase dez anos para lançar a sua estreia completa; neste meio tempo, o grupo teve duas músicas (“The Cave” e “Ugly”) na coletânea “Mash It Up”, quando eles ainda se chamavam The Bosstones. Como já havia um grupo com este nome, eles fizeram uma suave mudança para The Mighty Mighty Bosstones e entraram no estúdio para gravar o seu primeiro disco de inéditas.

“Devil’s Night Out” foi lançado no dia 22 de agosto de 1989, via Taang! Records e revelou um grupo misturando guitarras de hardcore/crossover, vocais ásperos (meio Tom Waits) e muito apoio de linhas de metais. O que poderia ser uma completa bagunça, se tornou um disco interessante e coeso sob a produção de Paul Q. Kolderie.

O riff da música “Devi’ls Night Out”, faixa de abertura do disco, poderia ser muito bem a abertura de um novo grupo de hardcore/ crossover — o que àquela altura, poderia ser algo de mais um grupo qualquer —, mas, de repente, surgem linhas de metais e uma levada meio Ska/ Reggae que é basicamente o refrão da faixa. Para o ouvinte de primeira viagem, imagino o susto que isso causou. A faixa seguinte, “Howwhywuz, Howwhyam”, consiste em uma estrutura voltada para a Ska Music, com o destaque para a linha de baixo de Gittleman.

E se o Ska da geração 2 Tone era considerada mais enérgica do que a versão original (a jamaicana), aqui ela está ainda mais rápida e frenética. “Drunks and Children” e “Hope I Never Lose My Wallet” são essencialmente músicas de Ska, sem muita proximidade com o hardcore, mas tem uma força onipresente tão grande que faria qualquer mosh pegar fogo.

Nessa cadência entre peso e balanço, o sexteto colocou faixas como “Patricia”, “Haji”, “The Bartender’s Song” e “The Cave (Cognito Fiesta Version)” na mesma conversa.

Em apenas vinte e cinco de duração, o Mighty Mighty Bosstones não apenas juntou dois estilos, eles pegaram um estilo já consolidado e os colidiram para formar o que seria uma das febres da década de 90. E “Devil’s Night Out” foi o pontapé não apenas do estilo, como o da própria banda de Boston que teve outras pesadas amostras nos discos seguintes.

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Guilherme
A ideia do Um Outro Lado da Música surgiu após a minha conclusão dos cursos de locução e sonoplastia no Senac. A primeira etapa foi o podcast, disponível no Soundcloud, sendo seguido pela página no Instagram. O site era um movimento natural e, cá estou, escrevendo sobre artistas novos, antigos, pops, undergrounds!

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