(Sub)gênero em foco: “Souls at Zero” e o post-metal antes de ser chamado de post-metal

A segunda semana especial de Post-Metal mergulha em um dos discos essenciais do estilo

Atualizado em: junho 6, 2026 às 5:35 pm

Você encontra por aí centenas – talvez milhares – de discos de metal que soam pesados, seja pela afinação baixa ou pelos vocais que emulam berros e gritos. Poucos, porém, conseguem alcançar um dos grandes feitos de “Souls at Zero”, do Neurosis: transformar o “peso” em uma experiência emocional de quase 50 minutos. Em 1992, enquanto o metal parecia cada vez mais obcecado pela velocidade e pela brutalidade, o Neurosis seguia outro caminho. “Souls at Zero” não queria apenas soar pesado, como também  transformar o peso em sensação, atmosfera e sofrimento.

Se você nunca teve contato com esse disco – ou com o próprio Neurosis –, essa descrição provavelmente fará imaginar que os minutos iniciais de “Souls at Zero” sejam pura porradaria. Mas… não é bem assim. O trabalho de 1992 abre com uma tradição do quinteto de Oakland: combinar samples cinematográficos às suas músicas. Aqui não é diferente. “To Crawl Under One’s Skin” leva quase dois minutos até que a banda realmente entre em cena, com uma bateria potente e riffs que parecem gritar de dor.

Os vocais surgem apenas depois dos três minutos, da forma mais estranha possível, soando como um homem das cavernas agonizando em solidão. O que o Neurosis faz aqui é uma mistura de eras da humanidade. Através da música, a banda une a dicotomia contraditória entre passado e futuro.

Em muitos momentos, “Souls at Zero” soa como algo que não pertence ao seu tempo – e, curiosamente, as décadas seguintes provaram justamente isso. Ao mesmo tempo em que parecia antecipar o futuro, o disco recuperava uma brutalidade quase paleolítica nos vocais e na bateria. Se você acha que estou exagerando, ouça “Takeahnase” com fones de ouvido. É impossível não sentir cada batida da caixa vibrar por dentro do corpo.

Refino e arcaico: aqui, dois elementos aparentemente antagônicos conseguem coexistir. Não há faixa que demonstre isso melhor do que a faixa-título. Sua narrativa, marcada por riffs hipnóticos repetitivos, atravessando uma ponte grosseira para terminar exatamente onde começou, se tornaria tendência em inúmeros discos lançados na década seguinte dentro do post-metal.Ouvir os primeiros trabalhos de Isis, Cult of Luna e Amenra – ícones do estilo – e reconhecer essas dinâmicas popularizadas pelo Neurosis é algo inevitável. O mesmo vale para a ousadia de unir música extrema a instrumentos de sopro, violino, viola e trompete, algo que inspiraria diversos outros nomes importantes da música pesada.

Flight” parece seguir a mesma estrutura das faixas anteriores, mas logo puxa o tapete do ouvinte com a presença da morte anunciada por uma flauta. “The Web” novamente combina samples cinematográficos com um sludge absurdamente influente, enquanto “Sterile Vision” mostra, através da mistura entre agressividade e delicadeza – aqui representada pelos trompetes –, que o post-metal já existia antes mesmo do rótulo ser criado.

Não à toa, há uma resenha em que o jornalista musical alemão Lars Brinkmann usa as seguintes palavras poéticas para definir “Souls at Zero”:

“Este álbum condensou tudo aquilo de que centenas de bandas precisariam nos quinze anos seguintes para conseguir se mover pelas zonas de atrito entre metal/hardcore e noise/rock. Ainda assim, até hoje nenhuma banda foi capaz de desencadear tormentas de sofrimento tão violentas quanto as deles e, ao mesmo tempo, fazer tanto casas de show quanto squats estremecerem com um pathos arrebatador.”

A sequência final do disco dá ainda mais força à citação.  Cada momento, cada sopro, toque ou grito ganha, aqui, um espaço especial,  como retratos épicos de uma narrativa de sobrevivência em um mundo desconhecido – atmosferas que o Neurosis constrói a cada linha, voz e batida.

 “A Chronology for Survival” é tomada pelo medo desse ambiente obscuro – e te faz sentir o mesmo – , enquanto “Stripped” se apresenta como um olhar para dentro, no reconhecimento das sensações mais dolorosas e estranhas, enquanto o instrumental toma contornos épicos.

Já “Takeahnse“, que vem na trinca, é a sentença de uma morte desastrosa, brutal e rancorosa. Quase oito minutos de música Sludge são aqui responsáveis por jogar na cara do ouvinte a iminência de um apocalipse climático.

Cada uma dessas faixas citadas são sentidas como capítulos de um livro que, mesmo sem imagens, consegue ambientar o ouvinte em um lugar quase físico. E, ao final, o que permanece é justamente essa sensação de atravessar algo maior do que a própria música.

O Neurosis nasceu do crust e do hardcore, mas encontrou em “Souls at Zero” um espaço próprio, abrindo caminhos que reverberam desde os anos 1990 até hoje em diversas bandas e na própria linguagem do post-metal. Poucas vozes traduzem esse impacto de forma tão direta quanto as de quem veio depois – e que ainda carregam esse disco como referência viva de algo mágico.

“Desde o momento em que ouvi Neurosis pela primeira vez, há mais de 30 anos, senti que esta era a música que meu coração e minha mente procuravam, mas ainda não tinham encontrado. Agora, após muitos anos trilhando diferentes caminhos musicais, o som e o espírito singulares incorporados pelo Neurosis continuam falando às profundezas do meu ser.”

– Aaron Turner, fundador das bandas Isis, Sumac e Old Man Gloom, além de ser novo membro do Neurosis.

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Arthur Coelho
Jornalista, baterista e apaixonado por música de todo tipo, principalmente se tiver gritaria. Também conhecido como Art ou Tuco.

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