Imagem dos integrantes do Zagüaraz

Um Outro Lado Entrevista – Zagüaraz

Formado por Rafael Panegalli e Daneil Brito, o Zagüaraz é uma força que está disposta a apontar o dedo para os seus algozes e transformá-la em arte

Atualizado em: julho 26, 2026 às 12:08 pm

Por Guilherme Costa

Em algum momento entre 2022 e 2023 eu conheci, navegando pelo YouTube ou Spotify, uma banda chamada Disaster Cities. Em abril de 2023, a banda — então formada por Rafael Panegalli, Júlio Miotto, Vinicius Cripa e Daniel Brito — lançou o seu segundo disco de estúdio, “Erasing Karma”, e eu não tive dúvidas em o incluir na listas de Melhores do Ano do Um Outro Lado da Música (então, apenas uma página no Instagram) daquele ano.

Dois anos depois, agora navegando pelo Instagram, eu reconheci a imagem de Rafael Panegalli numa postagem da Forever Vacation e descobri que ele e o baterista Daniel Brito haviam formado uma nova banda. O Zagüaraz!

O single de estreia, “Panorama”, saiu no fim de abril do ano passado e mostrou que a dupla estava com a criatividade renovada e disposta a buscar outros caminhos dentro das suas influências:

“Acho que a primeira fagulha criativa de criar um novo som veio da pausa coercitiva. Isso nos forçou a revisitar muito do que ouvíamos, e nos fez reestabelecer contato com uma parte nossa que talvez havíamos negligenciado. Foi uma época de revisitar sons e bandas que eu não ouvia há muito tempo, e também de me manter aberto a escutar o máximo possível de coisas novas e diferentes, de cabeça e peito aberto, tentando assimilar novas formas de tocar e me expressar.”

“Talentos Inúteis”, o EP de estreia do Zagüaraz, não demorou para sair e revelou que haviam outras insatisfações a serem externadas, num registro que critica influencers (artista de nada), problemas estruturais que nos impedem de viver a vida de uma forma mais saudável e contemplativa, vícios digitais numa “necessidade de registrar, denunciar e tentar entender os tempos que vivemos, através da música”.

Entre registros nas redes sociais, (muitos) shows — a banda se apresenta no próximo dia 31, ao lado do The Zasters, no Fenda 315 — e a pretensão de o lançamento de outro material de inéditas, Rafa e Daniel (que agora também é baterista do Flor Et) trocaram uma ideia com o Um Outro Lado da Música.

Confira:

Inicio com uma pergunta que eu creio que seja muito comum: qual é a origem do nome Zagüaraz e como surgiu a ideia desse nome?

“Zagüaraz” é a forma errada de escrever e falar o termo “Jaguara”, que é uma expressão comum no sul do país, que sempre achamos muito engraçada. “Jaguara” significa “safado”, “sem-vergonha”, “pilantra”. A grafia com Z no começo e final, simula um indivíduo falando “jaguara” enquanto está alcoolizado, pois foi uma cena comum vivenciada pelo Rafa, crescendo no interior de Santa Catarina. A trema é pra ficar legal na logo (risos). Foi daí que surgiu o nome bizarro.

Vocês têm feito bastantes shows desde que anunciaram o projeto, tocando até em cidades fora de São Paulo. Em tempos de contatos virtuais, como tem sido essa comunicação com o público que vão aos seus shows?

A recepção do público tem sido ótima. Acho que a banda acaba sendo uma surpresa pra quem assiste pela primeira vez, pelo barulho que é, e pela forma como a gente preenche os espaços. A gente ama muito estar na estrada, conhecer outras bandas, rever amigos.

Aliás, como tem sido essa logística para tocar fora de SP? Há planos concretos para conhecer novos estados?

Ao longo desse ano de 2026 estamos tentando estabelecer contato com o máximo de locais e regiões possíveis. A primeira parte da tour “Talentos Inúteis” começou com 3 datas no Sul, que foram muito legais. Queremos girar mais pro interior de SP, RJ, MG e GO. Na real qualquer lugar que chamar a gente, a gente está indo.

Concreeeeetos, concretos, não. Só especulações (risos)

Em conversa na Algohits, quando fui vê-los, vocês comentaram sobre fugir um pouco da Disaster Cities, porque era uma outra fase da vida de vocês. Pensando na sonoridade da dupla, como vocês começaram a criar algo que fugisse do som da antiga banda?

Acho que a primeira fagulha criativa de criar um novo som veio da pausa coercitiva. Isso nos forçou a revisitar muito do que ouvíamos, e nos fez reestabelecer contato com uma parte nossa que talvez havíamos negligenciado. Foi uma época de revisitar sons e bandas que eu não ouvia há muito tempo, e também de me manter aberto a escutar o máximo possível de coisas novas e diferentes, de cabeça e peito aberto, tentando assimilar novas formas de tocar e me expressar. Eu decidi também que um dos objetivos nesse projeto seria dar uma atenção especial as letras, tentando evitar clichês, procurando ser o mais sincero possível, tentando fazer novas conexões que narrassem e registrassem mais o meu redor, e menos o meu interior, e nesse processo todo tentar me entender melhor. Começar de novo sempre é desafiador, mas sempre traz boas surpresas.

A temática do “Talentos Inúteis” é composta por muitas críticas de teor social. Lógico que isso é um prato cheio, pelos problemas que o Brasil enfrenta, mas qual foi o gatilho que os motivaram a tocar nos assuntos abordados no EP?

Acho que não necessariamente houve um gatilho. Acho que é mais uma necessidade de registrar, denunciar e tentar entender os tempos que vivemos, através da música, sem uma resposta pronta ou pretensão, só uma sinceridade visceral e um descontentamento crônico que nos fazem mais perguntas, do que trazem respostas.

E a faixa título critica os influencers que são famosos por, basicamente, nada. E, embora a música fale sobre isso, é possível fazer um paralelo com uma queixa que muitos artistas fazem sobre o trabalho praticamente full time de exposição/ divulgação nas redes sociais. Para além dos problemas das ilusões que os influencers vendem, como vocês enxergam essa “obrigatoriedade” de estarem sempre online para divulgar a sua arte?

A gente acha um saco kkkk. Nosso carisma às vezes é negativo e nosso desempenho nas redes é de tiozinho. Mas a gente tenta, mesmo que não sejamos tão bons em estar cronicamente online, criar conteúdo, formar uma “comunidade”. De toda forma, essa é a vitrine disponível, a gente usa conforme temos algo a mostrar de fato e tempo. A gente não se cobra tanto com relação a isso. Acho que no começo era mais neurótica essa parte, mas no momento estamos bastante focados nas novas músicas.

E vocês comentaram em suas redes sociais que tocarão músicas novas no show do dia 16/7 [a entrevista está sendo nesse dia], então quais são os próximos passos do Zagüaraz? Há disco vindo por aí ou outro EP?

Tem coisa nova vindo por aí sim. Acho que mergulhamos ainda mais profundamente nas revisitações de nossas influências, e também acabamos nos deparando com novas possibilidades criativas dentro desse giro. Temos mais de 10 faixas novas, algumas com participações especiais, e que também seguem a receita do primeiro EP de serem bastante distintas entre si, mas conectadas através das texturas, timbres, atmosferas e conceito. Queremos organizar e finalizar tudo até o final desse ano, além de fazer a parte II da Talentos Inúteis tour pra fechar o ano, pra lançar o material no inicio de 2027.

Quando eu preparei as perguntas, não tinha saído a notícia da entrada do Daniel para o Flor Et. Pode comentar um pouco como foi o convite e os desafios que você enxerga na sonoridade do grupo?

A história com a Flor ET começou na seletiva do Porão do Rock. A gente assistiu ao show deles e, de cara, rolou uma identificação muito grande. A apresentação foi impecável, tanto que estávamos torcendo de verdade para que eles conquistassem a vaga. Ainda no evento, começamos a trocar ideia e foi ali que nasceu uma amizade. Passamos a trocar umas figurinhas, na sequencia fizemos um evento em que dividimos o palco com as duas bandas e seguimos mantendo contato.

Um tempo depois, recebi uma mensagem deles perguntando se eu teria disponibilidade para fazer um show com a banda. Confesso que fui pego completamente de surpresa, mas aceitei o convite. O único “detalhe” era que eu tinha apenas uma semana para aprender todo o repertório.

E aí começou a correria… As músicas da Flor ET são cheias de detalhes, bem desafiadoras e fogem um pouco da minha zona de conforto. Além disso, existia a responsabilidade de assumir o lugar de um ótimo baterista em uma banda do nível da Flor ET. Bateu aquele frio na barriga, a semana foi intensa, mas deu tudo certo. O show foi incrível e, no fim das contas, toda a tensão valeu a pena.

O mais legal de tudo é que eu já era fã da banda antes mesmo de fazer parte dela. Desde o primeiro ensaio, tudo aconteceu de forma muito leve e natural. Fui recebido de braços abertos, o clima entre a gente é excelente, eles são pessoas sensacionais! É engraçado porque não parece que estou na banda há pouco tempo, me sinto bem à vontade, a sensação é de que a gente toca junto há anos, e isso faz toda a diferença dentro e fora do palco.

Então é isso. Muito obrigado pela entrevista, Rafa e Daniel!

Obrigado, Gui Costa, pela oportunidade de trocarmos uma ideia, pelo espaço e pela força de sempre! Vida longa @umoutroladodamusica!

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Guilherme
A ideia do Um Outro Lado da Música surgiu após a minha conclusão dos cursos de locução e sonoplastia no Senac. A primeira etapa foi o podcast, disponível no Soundcloud, sendo seguido pela página no Instagram. O site era um movimento natural e, cá estou, escrevendo sobre artistas novos, antigos, pops, undergrounds!

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