Atualizado em: julho 2, 2026 às 9:19 am
Por Guilherme Costa
Sempre faço questão de ressaltar a ligação que o Um Outro Lado da Música tem com artistas chilenos. Embora não seja algo tão pessoal — afinal, há uma barreira linguística e espacial —, desde que a página no Instagram (e, posteriormente, o site) foi criado eu tive contato com diversos artistas do país. Como se um portal tivesse sido aberto.
Dos Melhores do Ano a resenhas e entrevistas!
O Escondite é um dessas bandas que eu conheci a partir do UOLDM. Atualmente formado por Germán Muñoz, Sebastián Yáñez, Matías Bacigalupo e Raúl Guzmán, o grupo chileno lançou o seu mais recente disco de inéditas “La Quebrada”, em 2025 — álbum que esteve entre os Melhores do Ano de 2025 — e acaba de compartilhar duas faixas reimaginadas do recente álbum. Previsão de uma versão deluxe? Germán foi econômico a dizer sobre: “é uma ideia que acho muito interessante para o futuro. Vamos mantê-la em mente”.
Além do mini EP “Anomalía (Versiones Alternas)”, que saiu via Sultan Discos, o principal nome por trás do grupo também comentou sobre os primeiros lançamentos da banda — incluindo o EP com o Isla Del Sol —, as suas influências, a construção por de trás do processo de composição de “La Quebrada”, a insólita situação de ter um livro emprestado não devolvido e mais.
Confira:

Começando com uma pergunta clichê, German, quais são as influências do grupo (internacionais e nacionais)?
Quando o projeto começou, em 2018, estávamos com muita vontade de fazer uma música mais barulhenta do que a que vínhamos fazendo até aquele momento. Ouvíamos muito Slint e Sonic Youth, mas, com o tempo, o projeto acabou seguindo outros caminhos.
Acho que o “La Quebrada” acabou sintetizando de forma natural todos os gostos que compartilhamos como banda: desde o pós-rock de Godspeed You! Black Emperor, a melancolia do Duster, a intensidade do Drive Like Jehu e as melodias do DIIV. A ideia sempre foi reunir essas influências e dar a elas uma identidade própria dentro da nossa música.
O álbum de estreia foi lançado na época da pandemia da COVID-19, que afetou as atividades de todo mundo (desde a forma de gravação até as composições). Como a banda e a cena do Chile enfrentaram essa situação de colapso que a pandemia causou?
A pandemia interrompeu completamente tudo o que estava acontecendo no Chile. Vínhamos do estallido social de 2018 [série de protestos e ações contra o governo do então presidente Sebastián Piñera] , um momento em que as ruas estavam cheias e tudo era vivido de forma muito coletiva. A pandemia foi o oposto: um período de isolamento que, em muitos momentos, pareceu bastante violento.
Pessoalmente, todas as atividades foram interrompidas e eu me dediquei a desenvolver outro projeto musical, Clima de Tundra, que acabou se tornando uma forma muito terapêutica de atravessar aqueles dias. Sei que muita gente encontrou maneiras de se reunir pela internet e até de fazer shows online, mas eu não participei muito desse movimento. Foram tempos realmente estranhos.
E o Escondite lançou um EP colaborativo com o Isla Del Sol em 2023. Pode comentar um pouco sobre essa parceria.
O EP se chama “Sueño Falso”. Sempre quis colaborar com amigos, especialmente com o Isla del Sol, uma banda que admiro muito. Musicalmente, eles seguem um caminho diferente: fazem um rock muito honesto e também poético, que me lembra Leonard Cohen.
Naquela época, estávamos retomando as atividades da banda e queríamos fazer canções inspiradas no Guided by Voices. Talvez essa mistura não tenha acontecido de forma totalmente natural, mas tenho um carinho muito especial por esse trabalho.
“Sin Pedir Permiso” foi composta quando meu pai faleceu e é interpretada por Carlos Doerr, do Isla del Sol. Ele sempre me diz que essa é uma das músicas mais bonitas que conhece. Eu nunca sei o que responder; admiro muito o Carlos e tenho um enorme carinho por ele.
“La Quebrada” teve o seu lançamento, inicialmente, programado para 2024, mas só saiu em maio do ano passado. Qual foi o motivo para essa mudança de planos?
Às vezes é melhor parar. Quando terminamos “La Quebrada”, eu estava muito ansioso: queria que o disco fosse lançado, que tivesse uma boa repercussão, que as pessoas o compartilhassem e que pudéssemos tocar em todos os lugares. Com o tempo, aprendi — um pouco à força — que as expectativas quase nunca correspondem à realidade, e foi por isso que decidimos fazer uma pausa.
O Escondite nos ensinou que sempre vamos continuar fazendo música, independentemente do contexto ou do lugar em que estivermos. Essa é a coisa mais bonita da banda. Às vezes isso também pode ser doloroso, mas, no fim das contas, a música sempre encontra sua própria justiça.
O novo disco tem uma sonoridade com texturas (eletrônicas) mais amplas do que a estreia (que é mais crua). Como e quando você começou a desenvolver esse tipo de abordagem para o álbum?
Sentimos que o processo de “La Quebrada” foi muito mais maduro. Já estávamos há quatro anos como banda, e tudo o que vivemos nesse período nos deu as ferramentas para focar no trabalho do disco de uma forma mais rigorosa. Começamos fazendo demos que, aos poucos, se transformaram em músicas, e depois iniciamos o trabalho com Carlos Doerr, no Sultan Estudio, em um processo que sentimos ser definitivo.
Quando as músicas já estavam prontas, eu sentia que ainda faltava algo que unificasse o disco e lhe desse uma identidade mais clara. Como o álbum tinha cerca de trinta minutos de duração, decidi incorporar as peças ambientais e reorganizar a ordem das faixas. Esse gesto acabou dando a forma definitiva ao disco e, para surpresa de todos nós, foi justamente o que deu coesão ao trabalho como um todo.
E ele é um disco com um conteúdo lírico mais econômico, digamos assim, em relação a parte instrumental, que é bastante expansiva (também, digamos assim). Pode comentar um pouco sobre essas nuances.
A verdade é que, às vezes, me pergunto se a parte vocal foi suficiente. Naquele momento, pareceu natural que ela fosse mais contida. Eu sentia que, quando a gente diz coisas demais, no fundo acaba dizendo muito pouco, e foi por isso que me interessou que a voz funcionasse dessa maneira.
Não se tratava de buscar um impacto maior ou mais dramaticidade por meio da redução do texto — ou até mesmo da sua supressão —, mas de algo que as próprias músicas pareciam pedir. Esse espaço permitia mergulhar nas camadas sonoras e concentrar a atenção na forma como as músicas e o disco iam se desenvolvendo. Acho que, no fim das contas, foi uma decisão muito mais intuitiva do que premeditada.
Uma das faixas que mais me chamou a atenção de “La Quebrada” é “Animal Negro”, porque ela destoa do clima etéreo do disco; ela é mais visceral e crua. E a letra também me passou um aspecto de “fera tentando ser domada”. Pode comentar sobre essa música e em como ela se encaixa com a atmosfera do álbum.
“Animal Negro” foi a primeira música que compus depois do nosso primeiro LP. Naquela época, Diego Cabezas, do Las Tres Marías, estava tocando guitarra, e tanto ele quanto o baterista eram muito fãs de At the Drive-In. Por isso, a música que fazíamos naquele período tendia a ser mais rápida e agressiva.
Gosto muito dessa música desde a sua composição. A melodia me lembra a trilha sonora de Majora’s Mask [A Máscara de Majora, no Brasil], mas acelerada até se tornar quase nervosa, misturada à bateria. Lembro que o Raúl me disse que a influência vinha de “Cause = Time”, do Broken Social Scene, embora, na verdade, ela tenha muitas outras referências cruzadas.
Escrevi a letra inspirado em um conto do livro La Laguna, de Álvaro Bisama. Nele, é contada a história de que, sob a cidade de Valparaíso, existiria um ser gigantesco, adormecido, mais antigo do que a própria história: uma espécie de besta mítica do tamanho, talvez, de toda a geografia da cidade. Achei essa imagem fantástica. E, se a pessoa para quem emprestei esse livro estiver lendo isto: por favor, devolva-o.
A banda compartilhou uma versão demo de duas músicas do recente disco. Há planos para liberar outras, numa versão extendida de “La Quebrada”?
Uma versão expandida de La Quebrada seria incrível de fazer; é uma ideia que acho muito interessante para o futuro. Vamos mantê-la em mente.
Para finalizar, quais são os próximos planos do grupo em relação a shows e lançamentos de material inédito?
Há algum tempo, estamos devendo tocar o disco ao vivo, completo, do começo ao fim. Imaginamos fazer isso cercados dos nossos amigos e das pessoas que nos escutam desde o início. Seria algo muito bonito, e estamos trabalhando para que isso possa acontecer.
Muito obrigado pela entrevista; nos sentimos muito honrados por este momento.





