Atualizado em: agosto 16, 2026 às 6:08 pm
Por Guilherme Costa
Eu não me lembro como eu conheci o Harvey Danger — talvez tenha sido em alguma matéria num portal gringo (Pitchfork, Stereogum…). O que eu lembro é que o foco foi o sucesso da música “Flagpole Sitta” e em como a banda passou a renegar a faixa, de forma semelhante ao que o Los Hermanos fez com “Ana Júlia” ou que o Klaxons fez com “Golden Skans”.
Outra coisa que eu lembro é que eu gostei do grande hit do grupo formado em Seattle e que eles ficaram no meu radar. Mas à época não havia muito o que falar sobre eles, já que o quadro Um Outro Lado Indica já não estava sob minha responsabilidade e, também, pelo fato do quarteto (ou quinteto, dependendo da época) encerrou as suas atividades em 2009.
Bom, como todo domingo o Um Outro Lado da Música traz uma resenha de um disco todo domingo (sem muitas justificativas), eu tenho o espaço para comentar sobre o registro de uma joia perdida do Alt Rock da década de 90/2000.
Formado em 1992, em Seattle, Washington, a primeira formação do Harvey Danger consistiu em Aaron Huffman (baixo) e Jeff J. Lin (guitarra), que se conheceram na universidade de Washington, com Evan Sult (bateria) e Sean Nelson (vocalista) completando a formação logo depois. Foi esse time que entrou no estúdio em 1996 para concluir o que seria o disco de estreia em 1997; neste ano, então, saiu “Where Have All the Merrymakers Gone”, via Arena Rock Recording Company, sendo um grande sucesso para o quarteto — capitaneado pela extensa veiculação do hit “Flagpole Sitta”.
O êxito catapultado pela alta rotação nas rádios dos EUA e aparições em filmes como o American Pie, após a Arena Rock ser vendida para a Slash Records (uma subsidiária da London Records), fizeram com o que o grupo criasse uma certa aversão ao sucesso que ela trouxe. Em matéria vinculado ao portal Av Club, Sult comentou sobre o sentimento da época:
“Parecia que tínhamos perdido o nosso público, sabe? Estávamos compondo para os nossos pares, que, na época, tínhamos 24 anos e curtíamos Pavement , Sebadoh e Guided By Voices . Sentíamos que ‘nunca fomos legais antes, e agora não somos legais, exceto para adolescentes de 13 anos que nos ouviram no rádio. Não é de admirar que eles não reconheçam a ironia ou o sarcasmo na música’”.
A ironia presente na letra (“Eu quero publicar revistas/ E me rebelar contra as máquinas/ Eu quero colocar piercing na língua/ Não dói, a sensação é normal/ O sublime trivial”) se voltou contra eles e situações exageradas, para dizer o mínimo, passou a ser uma constante na vida dos integrantes do grupo. Mas para além das intempéries do sucesso que um hit de Power Pop pode causar, o disco de estreia do Harvey Danger é bom demais!
“Carlotta Valdez” abre “Where Have All the Merrymakers Gone?” com uma acidez bastante juvenil, onde a linha de baixo pulsante e uma guitarra dissonante são o suficiente para botar o mundo abaixo. O sempre comentado hino do grupo vem em seguida e é sucedido por “Wooly Muffler”, que inicia numa crescente até a explosão do seu segundo verso.
O segundo single do álbum foi “Private Helicopter”, que não chegou nem perto do sucesso de “Flagpole Sitta”, mas compartilha da crueza de outras faixas — como “Carlotta Valdez”, faixa que a banda teria escolhido como single mas não teve o seu desejo atendido pela gravadora —, lembrando em muito o início do Green Day. Além do peso cru, há faixas um pouco mais encorpadas com os instrumentos com efeitos, como é o caso da notável linha de baixo de “Old Hat” ou na noise “Jack the Lion” — estas, já na parte final do disco.
Em meio a tantos excessos de energias punk, o Harvey Danger desacelera um pouco na sombria “Problems And Bigger Ones”, onde a faixa revela certos traumas do seu personagem principal: “eu nunca disse não, nunca disse não/ Confrontos rancorosos, separações judiciais/É apenas mais um presente para superar/ O homem foi muito prestativo, mas eu sabia que ele não ficaria/ Costumava haver um bebê, mas o bebê foi embora”.
“Flagpole Sitta” foi incluída na lista dos “50 melhores músicas dos anos noventa” da Rolling Stone, na frente de muita coisa de respeito e está na insólita lista dos One Hit Wonders e. Com um carreira que rendeu apenas três discos, sendo o último após o retorno em 2004, o quarteto acabou se tornando um grupo cult onde quem o conhecia segue os cultuando e para quem os conhece e se depara com a história do seu hit, deixa de lado a ideia de que o Harvey Danger foi um fenômeno fugaz.
A propósito, o álbum é o único do quarteto a não estar em nenhuma plataforma de streaming, estando apenas no YouTube de forma não oficial.





